A imagem que a gente leva do Brasil

Enquanto escrevo, Carol prepara delicadamente meu banho: após acionar uma barulhenta bomba de água, ela derrama o líquido de aspecto esquisito que sai da mangueira em um balde até enchê-lo completamente. Aí então eu pego o recipiente, levo até o banheiro, e em posse de uma caneca começo a tomar meu banho em etapas. Preciso lavar-me com cuidado, reaproveitando a água que escorre de mim e vai caindo em outro balde – esta será usada para a descarga do vaso sanitário.

Não, ainda não chegamos no Laos, ou no Camboja, muito menos no Vietnã. Esse é apenas uma das realidades que enfrentamos neste último mês na Cidade Maravilhosa.

2014 começou de forma, digamos, curiosa. Fomos para a casa de parentes, em outro ponto da cidade. Ainda estavam organizando a ceia de ano novo na mesa quando o serviço de luz foi interrompido. O tempo foi passando, e graças ao calor insuportável típico do verão carioca, os refrigerantes foram esquentando, os doces ficando moles e a comida cada vez menos interessante: todos só queriam água, água e água. Felizmente esta ainda não havia faltado. Quando criança, minha avó sempre me ninava cantando: “Rio de Janeiro / cidade que reluz / de dia falta água / de noite falta luz”. Ele nunca esteve tão certa.

Os desejos de fim de ano (todos pedindo para que a luz voltasse, só isso) infelizmente não foram atendidos. Mas à meia-noite, o som dos fogos iluminou o céu e nos reacendeu a esperança. Fomos para fora contemplar o espetáculo de pirotecnia – quer dizer, bem que tentamos. Um barulho conhecido dos cariocas, estampido oco e brutal, ecoa no ambiente e mistura-se ao cortejo: TIROS. Hora de voltar correndo para uma área abrigada, proteger as crianças e tentar salvar o pouco de dignidade que ainda nos resta. A poucos quilômetros dali, em Copacabana, algumas pessoas não tiveram a mesma sorte e foram alvejadas. Em todo o Brasil, muitos passavam a virada de ano de maneira igual ou pior que a nossa.

Olhando para a imensa escuridão à minha frente, iluminada apenas por alguns pequenos pontos luminosos nos morros, cheguei à uma terrível conclusão. Se me perguntassem, naquele momento, o que era o Brasil, eu não pensaria duas vezes em responder:

O Brasil é um lugar que vive nas trevas. Um lugar onde os serviços mais básicos são negados à sua população. Um lugar onde vive-se com medo: sai-se de casa como quem vai à guerra.

E como para confirmar minha teoria, todos os dias de janeiro seguiram-se nos mesmos padrões: ora faltava água, ora faltava luz, em todos os lugares que íamos. Isso sem contar as experiências exóticas do cotidiano que a gente se submete a passar, como por exemplo, pegar um ônibus com seu pai e um passageiro ao lado não só preparar um baseado, bem ao seu lado, como também oferecê-lo a você e ao seu progenitor…

Hmpf, e a gente achando que vai ver coisas bizarras por aí.

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Uma resposta em “A imagem que a gente leva do Brasil

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