Dois Caipiras em Hong Kong

1º Dia – Hong Kong, manhã de 28 de janeiro de 2014.

As 12 horas e meia de voo que separam Joanesburgo de Hong Kong demoram a passar, mas não são capazes de nos dar a real dimensão do quão distante estamos de casa. Fomos parar no outro lado do mundo, mas a sensação é de ter pego um ônibus do Rio até a Bahia.

O jetlag, fenômeno conhecido de quem viaja para longe, caracterizado pela dificuldade do corpo em adaptar-se a um novo fuso-horário, começa a dar as caras: tontura misturada com garganta seca, sonolência e desorientação surgem ainda durante o trajeto.

A aterrissagem no aeroporto de Hong Kong não é simplesmente uma manobra aérea: é um parto. A aeronave vira, desvira, desce, sobe, desce de novo, desvia pra cá e pra lá… e não é pra menos. O conjunto de ilhas montanhosas e os prédios altíssimos da região exigem do piloto – e dos passageiros – uma dose extra de paciência.

Pouco a pouco vamos chegando e, enfim, as rodas do avião tocam o solo da pista de pouso. O mundo girou mais rápido do que o habitual pra gente nas últimas horas, e sentimos EXATAMENTE isso. Até as comissárias parecem tontas.

Mal saímos do finger e fomos parados. Duas moças e um rapaz, todos com cara de estudantes maoístas a serviço do governo chinês, exigiram-nos o passaporte. Não estavam uniformizados nem nada, sequer portavam crachás de identificação, mas secamente se apresentaram: “Nós somos a imigração”.

PAUSA.

Ainda estávamos em São Paulo quando meu pai me pregou uma peça. Ligou pro nosso celular e, sabendo que eu atendo sempre sem saber quem é, foi falando em inglês que era da imigração chinesa e que por alguma razão não poderíamos entrar em Hong Kong. Claro, logo percebi a brincadeira e ficou tudo bem, mas imagine com que sentimento eu ouvi a frase “somos a imigração” logo ao chegar…

FIM DA PAUSA.

Desajeitadamente tiramos os passaportes da moneybelt e fomos respondendo DA PIOR MANEIRA POSSÍVEL as perguntas que eles fizeram.

– Vieram fazer o que aqui?
– Eh…ah…viajar… eh…
– Vão ficar aonde?
– Eh… na casa de uma amiga do Canadá…
– Ela não é chinesa?
– Não, canadense, na verdade ela trabalha aqui…
– TRABALHA AQUI?
– Sim, sim, eh, legalmente, eu acho…ah…
– …

Eles entreolharam-se e fizeram uma cara do tipo “de onde saíram essas figuras?”. De alguma forma simplesmente resolveram não implicar. Apenas nos devolveram os passaportes e mandaram-nos seguir em frente.

E aí veio a primeira surpresa: Demos de cara com um… metrô! Não, não era o ramal que leva até o centro da cidade. ERA UM METRÔ INTERNO DO AEROPORTO, que leva de um terminal ao outro.

Ai ai ai, Galeão e Guarulhos...

Ai ai ai, Galeão e Guarulhos…

Fizemos a “viagem” de menos de um minuto e fomos pegar a nossa mochila, que a essa hora, ao menos na minha mente, já estava pra lá de violada ou até mesmo desviada. Mas nada disso. A coitadinha chegou bem, melhor que a gente até, após atravessar três continentes.

Com a bagagem em mãos, vi a porta de saída do aeroporto. Aí me liguei: “Ei, e nosso carimbo?”. Fui atrás de um funcionário para me informar, mas ele nem deu atenção. “Brasileiro? Não, não precisa de carimbo, não”, e foi praticamente me empurrando para fora da área de desembarque.

Será que estamos ilegais em Hong Kong? Já me basta aquela vez na Guiana

O importante é que fomos saindo para a área social do aeroporto. O cansaço batia forte, mas no meu caso virou histeria. Fiquei realmente agoniado com tanto movimento, gente, lojas, luzes… Sabe o filme “A Família Buscapé”, quando o pessoal chega na cidade grande e se depara com tudo tão diferente? Esse era eu.

Há 24 horas atrás eu estava no Rio de Janeiro, uma cidade que sequer tem água e luz direito. Foi um choque muito grande. A desorientação do jetlag colaborou, e precisei sentar e tomar um pouco de ar para entender o que se passava ao meu redor.

De volta ao normal, ou pelo menos próximo disso, a primeira coisa a fazermos foi adquirir o Octopus Card, uma espécie de bilhete eletrônico que substitui o uso do dinheiro na compra de passagens de ônibus, metrôs, bondes, mas na verdade serve para pagar tudo aqui: mercados, McDonald’s, máquinas de refrigerante, etc, tudo por aqui aceita esse cartão.

Na saída do aeroporto em direção ao terminal de ônibus, verificamos uma das principais características de Hong Kong: flores. Em breve descobriríamos como toda a cidade, mesmo os bairros mais afastados, é florida, sinal do cuidado extremo que os cidadãos tem pelo lugar em que vivem.

Pegamos o confortável ônibus de dois andares (todos por aqui são assim) até a casa da nossa anfitriã, morrendo de medo da direção em mão inglesa, que na nossa cabeça sempre vai ser contramão. O caminho vai nos mostrando uma cidade incrível, moderna, populosa e super bem cuidada.

Mas mal sabíamos o que viria pela frente…

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5 respostas em “Dois Caipiras em Hong Kong

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