Altas Confusões em Hong Kong

2º Dia – Kowloon, 28 e 29 de janeiro de 2014, Hong Kong.

O jetlag ainda batia forte, nos deixando completamente zonzos. Estávamos grogues, era isso. E nem foi culpa da Amarula. O chão parecia tremer, a boca estava seca e os olhos ardiam.

Sorte nossa que se locomover por Hong Kong não é só fácil: é ridiculamente fácil. Onde quer que se esteja, sempre haverá pelo menos uma estação de metrô por perto, um terminal de ônibus, linhas auxiliares de minivans e é claro, táxis.

Fomos para o apartamento da nossa anfitriã que conhecemos pelo Couchsurfing. Ela mora em Kowloon, um distrito ligeiramente mais afastado de HK Island, o centro da cidade. Mas nem por isso o lugar é um “subúrbio”: a verticalização é expressiva, e estávamos desde já surpresos pelo aspecto de metrópole em todo o lugar que passamos. Parece que o “centro” nunca acaba. Não há casas em Hong Kong, somente prédios, prédios e mais prédios. Mc Donalds e Shoppings estão espalhados por todas as esquinas.

Os edifícios residenciais por aqui são curiosos – e não é só por serem mais altos do que a média. Muitos são construídos por cima dos morros, sendo necessária a existência de elevadores nas ruas para levar até a entrada do prédio! Com tantos mercados e shoppings na vizinhança, às vezes até mesmo em seu interior, os condomínios podem ser considerados quase como cidades independentes.

Nossa amiga não estaria em casa e avisou-nos com antecedência que deixaria as chaves debaixo do tapete. Achamos aquilo incrível, uma excelente introdução aos modos diferentes de pensar de cada cultura. Mas ao abrir a porta, que surpresa!

Não foi só o tamanho do apartamento que nos chamou a atenção, minúsculo até mesmo para os padrões de Hong Kong. É que o lugar estava muito sujo. Sujo não, imundo! Um cheiro forte de fritura e chulé misturados. Havia pouquíssima mobília, basicamente um sofá, uma mesa e um armário, todos bem velhos. Lixos aleatórios jogados para todo lado: talheres usados no chão, sacos de batata debaixo do sofá (!), colchonetes encardidos, emoldurados por um teto e paredes mofadas.

Isso sem contar a cozinha, com a louça e o fogão mais fétidos que já vimos. Havia comida estragada criando bichos, e o banheiro, bom… é necessário mesmo entrar nessa parte? Digamos que uma pia entupida com água suja de cuspe e parada há dias é o que havia de menos pior por ali.

Já vi cracolândias mais limpas e organizadas do que aquele lugar. Seria a hora de ativar o sensor de relativismo cultural e entender que toda aquela imundície era só “costume” deles? Não deu. Parecia porquice mesmo.

Tão logo percebemos a furada em que havíamos nos metido, alguém bateu na porta. Confesso que gelei de medo e imaginei o pior. Caramba, estávamos em um lugar que mais parecia um cativeiro, poderíamos ter caído em uma armadilha. Éramos presas fáceis: jovens, longe de casa, com algum dinheiro no bolso e sem conhecer o lugar que estávamos. Maldita internet! Em poucos segundos criei todo o futuro em minha mente: William Bonner anunciaria que “dois jovens mochileiros foram assassinados brutalmente em Hong Kong”. Nossos órgãos aquela hora já estariam sendo vendidos no mercado negro, na Deep Web, pior ainda, no eBay.

Nossa família estaria chorando copiosamente, nossos sobrinhos ficariam traumatizados para o resto da vida. Enquanto nossos caixões vazios fossem descendo a cova rasa dos indigentes, o irmão da Carol estaria amaldiçoando meu cadáver dizendo “Eu sabia! Eu sabia! Minha irmã não tinha nada que ter ficado com esse garoto!”. Meu pai estaria arrancando os poucos cabelos que ainda lhe restam, e o pranto só seria interrompido pelo meu irmão mais novo que, consolando minha mãe, levantaria seu véu negro e perguntaria: “Posso ficar com a bicicleta dele?”.

Tudo isso passou pela minha cabeça em dois ou três segundos. Carol estava apreensiva, mas assentiu que abríssemos a porta. Girei a maçaneta devagar… e eis então que surge uma loira, alta, olhos verdes e uma mochila nas costas. Era Roberta, mochileira da Lituânia e que também estava hospedada por ali. Feitas as apresentações, ficou um bom tempo falando mal da anfitriã e do lugar. Disse-nos que estilo de vida da garota era péssimo, reclamou do cheiro do namorado dela, revelou que estava odiando o lugar e iria embora no outro dia. Falou inclusive que o lugar já esteve pior (!!!), ela é que havia limpado um pouco.

E agora, o que fazer? Ainda tínhamos outros problemas, nossa câmera estava com defeito e o tênis da Carol estava a machucando, precisávamos urgentemente comprar coisas novas. Deixamos nossas coisas no apartamento e pegamos um metrô para Mong Kok, região famosa pelos bons preços. Mas quem disse que o Sr. Jetlag nos deixaria fazer alguma coisa? Estava anoitecendo e as luzes fortes típicas da metrópole asiática nos deram uma dor de cabeça terrível. A iluminação dos letreiros, a claustrofobia dos prédios, as barraquinhas de comida com odores estranhos e cheias de fumaça, as milhares de pessoas que circulavam no horário de rush e esbarravam na gente…

Tudo aquilo nos irritava profundamente, e logo percebemos que não tínhamos mais concentração para nada. Apenas nos jogamos no próximo metrô e fomos parar novamente no apartamento. A dona da casa já estava lá, mas mal conseguimos falar com ela. Ficou muito feliz com os presentes (doce de leite e Havaianas), agradeceu e tentou puxar conversa, mas eu já não falava mais português, sequer inglês. Emitindo apenas alguns grunhidos, gastei minhas últimas energias para forrar os sacos de dormir no chão sujo e então sucumbimos. Fosse o que Deus quiser – e que as pessoas que recebessem nossos rins pelo menos os merecessem.

A noite foi péssima, acordamos no outro dia bem cansados. A lituana ainda dormia no sofá e a dona da casa havia ido trabalhar. Na cozinha esquisita, a geladeira estava vazia, e sequer haviam panelas ou talheres. Decidimos sair dali e comprar o café-da-manhã, passear um pouco pela região de Tsim Sha Tsui e ver os museus (quarta-feira é de graça!), e depois decidiríamos o que fazer.

Nosso café-da-manhã: dumplings e noodles.

Nosso café-da-manhã: dumplings e noodles.

Após uma tarde cheia, voltamos para o apartamento decididos a pegar nossas coisas e ir para um hotel. Entretanto, demos de cara com a anfitriã limpando a sala. Era engraçado vê-la manuseando a vassoura como se nunca tivesse usado uma antes. O namorado dela, um britânico altão e muito engraçado de sotaque incompreensível, mas super gente boa, pediu-nos desculpa pelo estado do banheiro e avisou que havia conseguido resolver o problema da pia. Aparentemente até eles ficaram constrangidos, talvez a lituana – que já tinha ido embora quando chegamos – tenha falado alguma coisa, não sei. Por fim, decidimos ficar mais uma noite.

No outro dia, acordamos bem cedo e pegamos no batente. Demos uma faxina bonita no lugar, ficou parecendo novo. Por diversas vezes nosso estômago ficou embrulhado com a quantidade de coisas nojentas que achamos nos lugares mais improváveis, mas o resultado da limpeza nos agradou.

Ao chegarem em casa após o trabalho, o casal nos agradeceu muito e acabamos nos entendendo. Mais um hóspede chegou, dessa vez um cearense maluco que está viajando há 16 meses ao redor do mundo. Praticamente transformamos o lugar em um campo de refugiados do Brasil.

No final das contas, acabamos percebendo que, desleixos à parte, estávamos lidando com duas crianças crescidas. Eles tinham seus ideais de vida, abandonaram seus países de origem muito cedo, viviam uma vida muito ocupada apenas para poder juntar algum dinheiro e viajar (já moraram no Brasil, no Peru, na China e só estavam há 3 meses em Hong Kong). Apesar de tudo, ainda abriam o pequeno espaço de seu lar para receber gente do mundo inteiro que, como nós, estivesse viajando e precisasse de um lugar para passar a noite. É um pensamento torto, mas eles tinham “mais coisas para se preocupar” do que limpar a casa.

Com o ambiente limpo, acabamos passando mais tempo do que o planejado por lá, até fomos todos juntos conhecer alguns lugares, e por fim acabamos nos dando bem. Aprendemos ainda nos primeiros dias de viagem uma valiosa lição: nem tudo está perdido, com um pouco de esforço e dedicação podemos resolver qualquer situação.

Carol até arriscou suas primeiras palavras em inglês

(E sim, aparentemente nossos rins ainda estão aqui).

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5 respostas em “Altas Confusões em Hong Kong

  1. Adorei!!!! Hong Kong ainda é um dos lugares que planejo visitar. Espero que não um lugar que precise de uma limpeza assim. Não sou ruim em trabalhos manuais, mas nesse nível iria requerer um pouco mais de minhas habilidades!!rsrsrsrs

  2. Tadinhos. Nós fizemos CS na Índia mas não pudemos contar os detalhes porque o anfitrião sabia do blog e não quisemos ofender. Ri muito mas HK vale todo o esforço. E como você disse, o problema dos dias atuais é que o pessoal desiste de tudo muito rápido sem a segunda consideração. Boa sorte.

  3. Pingback: Comer, Rezar e Amar em Ubud | Os Incomodados que se Mudem!

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