Os Cenários de Hong Kong e o Ano Novo Chinês

4º Dia – HK Island, 31 de Janeiro de 2014, Hong Kong.

Estranhando a ausência de pontes? É que o governo por aqui preferiu não construí-las para não poluir a paisagem!

Viajar para Hong Kong em pleno ano novo chinês não foi uma escolha planejada, mas apenas uma feliz coincidência. Assim que chegamos, ficamos encantados com toda a preparação da cidade para a data: Os prédios e ruas enfeitados com balões e pisca-piscas, as portarias distribuindo balas e pistaches. Tangerinas miúdas servem como decoração em diversos lugares, superstição que atrai felicidade e boa sorte ao novo ano. Até o Mc Donald’s entra na onda e lança o Prosperity Burguer.

O clima parece uma mistura de Natal com dia de Ação e Graças, com uma pitada consumista típica daqui. Mas nem sinal dos festejos típicos do réveillon ocidental. Na verdade, fica até complicado de entender a data correta da comemoração. Os trabalhadores ganham 4 dias de folga a partir do dia 30/01. Mas tudo, inclusive as principais atrações turísticas, continuam a funcionar.

Tínhamos dado o dia 31 como morto, mas uma vez conscientes de que Hong Kong não para, resolvemos ir ver uma de suas maiores atrações, o The Peak, uma montanha no centro de Hong Kong Island de onde é possível ter uma visão privilegiada da cidade.

No caminho, uma rápida passada pelo Kowloon Park, um parque urbano que reúne o que há de melhor na cidade: a mistura entre a natureza e o urbanismo impecável.

Quando decidimos vir para Hong Kong, confesso que esperávamos ver uma selva de pedra, uma metrópole ao estilo de São Paulo, com um pouco da natureza do Rio. Mas tomamos um tapa na cara. Aliás, um tapão, desses que a gente rodopia e se estrebucha no chão, todo dolorido. Hong Kong não é São Paulo, Hong Kong não é Rio. Não tem nem comparação. Hong Kong é Hong Kong, é limpa, organizada, segura e incrivelmente bela.

“Mania de limpeza” também descreve bem Hong Kong. Corrimãos, torneiras e maçanetas são esterilizadas várias vezes ao dia, e muita gente usa máscaras nas ruas.

O cuidado que possuem com o bem público é de se admirar. Outro ponto que chama a atenção é a acessibilidade. Uma das primeiras coisas que estranhamos aqui foi o alto número de deficientes nas ruas, completamente integrados à sociedade. Nosso pensamento tacanho logo nos fez imaginar situações relacionadas a altos índices de acidente de carro, minas terrestres, métodos de tortura chineses e outras bizarrices. Mas só com o tempo fomos notando os sinais de trânsito adaptados e as calçadas perfeitas, niveladas e com rampa, e aí então nos demos conta de que a cidade é acessível para todos. Simples assim.

Sei que pode parecer chato e repetitivo ficar se derretendo de elogios, mas é que Hong Kong realmente mexeu com a gente. Toda e qualquer comparação que possamos fazer com o que estamos acostumados – ou melhor, acomodados – no Brasil é brutal, depressiva e nauseante. Não se trata de achar a grama do vizinho mais verde. Trata-se de perceber que na verdade nunca tínhamos visto grama antes.

Seguimos em direção aos ferries que levam até HK Island, e embarcamos na baratíssima (menos de R$1) e curta viagem pela Baía.

A brisa cai bem e é um atrativo a mais na contemplação da paisagem.

A ideia a partir daqui era seguir até o ponto onde um bonde nos levaria até o alto do morro, onde poderíamos ter uma visão da cidade bem do alto.

Não um bonde como esse, mas um bem mais inclinado para vencer o caminho íngreme.

Verdade seja dita, não estávamos nem um pouco preocupados em chegar ao nosso destino. Preferimos voluntariamente nos perder e acabamos parando nas proximidades das Mid-level Escalators, simplesmente o maior conjunto de rampas e escadas rolantes do mundo.

São quilômetros e mais quilômetros de subidas sem fim, que vão levando os pedestres para as diversas ruas que fazem parte do trajeto. Uma solução simples e eficiente para reduzir o trânsito em uma região movimentada da cidade, que é montanhosa e de acesso difícil para alguns veículos.

Alguns poucos cortiços históricos ainda resistem na vizinhança, que vem sendo tomada pela construção de arranha-céus. Esse é o cenário mais próximo de uma favela que você vai ver em Hong Kong.

Enquanto andávamos, realmente nos perdemos. Sem saber em qual direção seguir, acabamos subindo uma ladeira, e mal sabíamos, mas era o acesso ao The Peak. A maioria  das grandes atrações da cidade possuem um meio de acesso turístico (bonde, teleférico…), mas também sempre oferecem a possibilidade se serem alcançadas gratuitamente por meio das trilhas.

E por “trilha”, entenda-se um caminho pela natureza, amplo e acimentado, com iluminação, banheiros, banco para descanso e até máquinas de água e refrigerante.

A jornada é bonita e, pouco a pouco, as árvores vão descortinando um pouco da paisagem que veremos quando chegarmos ao pico.

Após alguns bons minutos de subida, chegamos.

O lugar está lotado (novidade…) e cheio de shoppings (não diga!), mas estávamos atrás da melhor vista.

E não é que achamos?

Lá de cima, um espetáculo natural acontece: o por-do-sol.

E lentamente, os prédios vão se iluminando, tornando-se pontinhos cheios de luzes na escuridão. A cidade se enfeita, e a noite fica completa.

Nessa hora a bateria da câmera resolve acabar e tínhamos esquecido de levar a extra. Fica o registro com o celular.

Ainda tivemos tempo de entrar em um dos shoppings para assistir a um pocket show bem legal.

Na saída, ir de bonde não era uma opção, já que a fila estava quilométrica. Não que a de ônibus estivesse melhor, longe disso, mas pelo menos sabíamos que caberiam mais gente nos ônibus. Dito e feito, 20 minutos depois já seguíamos uma linda serrinha abaixo, sempre com aquela imagem dos prédios a cada curva.

E na hora de pegar o ferry de volta, Hong Kong nos oferece um show de luzes e cores.

Ao chegar em Kowloon novamente, uma surpresa nos aguardava. Era o dia dos desfiles do ano novo chinês! Tudo lotado, gente do mundo inteiro aguardando o espetáculo.

Ao contrário do que possa se imaginar, estávamos bem longe da meia-noite ainda, mas e daí? Seriam quatro dias de comemoração dali pra frente, tanto faz que horas as festividades fossem começar.

Os tambores rufaram e a celebração começaram. Único ponto negativo de Hong Kong até agora: tentaram imitar o carnaval brasileiro.

Começaram muito bem, com o típico dragão chinês passando pelo povo. Em pouco tempo, batuques desconexos e fora de ritmo davam introdução a um show de carros alegóricos (!), com direito a passistas fantasiadas, gente lutando kung-fu, homens cuspindo fogo, algo que parecia o bumba-meu-boi (!!), bonecos de Olinda (!!!) e tudo o mais.

O negócio era um show de horrores, bem fraquinho mesmo. A qualidade das fotos está ruim, mas nem se fosse em alta-resolução resolveria o problema…

No meio da balbúrdia, apareceu um estudante chinês querendo fazer uma pesquisa comigo. Com vários papéis em mãos, iniciou o questionário enorme perguntando o que eu achava do evento, minhas expectativas, opinião, etc. Eu já estava meio sem paciência, e para não ofendê-lo, comecei a dizer que tudo aquilo era lindo, maravilhoso, uma das melhores coisas que eu já tinha visto na vida. Que eu era brasileiro e nunca tinha visto nada igual, que aquilo ali era melhor que o carnaval do Brasil e tal. O coitado foi marcando as respostas, todo feliz, e ainda me deu um brochinho de lembrança. Que beleza!

E como se não bastasse o apitaço irritante toda a precariedade do evento, de repente aparece o carro alegórico… do PATO DONALD!

Unidos da Vila Disney, nota…. DEZ!

Sério, eu fico imaginando o diálogo dos organizadores do evento:

– E aí, Wei Hua, bora fazer um desfile maneiro?

– Claro, Xing Lin! Que tal uns carros alegóricos?

– Beleza! Vamos apertar a tecla RANDOM e colocar tudo nesse desfile!

– Isso mesmo! Bota carro alegórico do patrocinador, umas passistas do Brasil, umas propagandas de cassino, e quando tudo parecer ter acabado, bora meter O PATO DONALD na história, bro!

Hora de ir embora pra casa, descansar um pouco, rir de toda aquela baboseira nada tradicional e completamente voltada para os ocidentais, e enfim entender que pelo menos o Brasil é bom em alguma coisa: no carnaval.

Basta agora reduzirmos o atraso educacional, fazermos algumas reformas políticas e tributárias, reduzirmos as taxas de homicídio e crimes hediondos em pelo menos uns 95%, e aí sim, a gente fica melhor que Hong Kong. Ou então eles ficam melhores do que a gente no carnaval, pelos menos já começaram a treinar. Mas a gente chega lá.

A gente chega lá.

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7 respostas em “Os Cenários de Hong Kong e o Ano Novo Chinês

  1. Pingback: Cheung Chau – O Lado B de Hong Kong | Os Incomodados que se Mudem!

  2. Você se esqueceu de mencionar que temos que acabar com os latifúndios, principalmente de latifundiários estrangeiros e expulsas todas as empresas consumistas que se apropriaram do que era pra ser domínio brasileiro: os metais e pedras preciosas em Minas, Pará e Amazônia além de prover que nossa agricultura seja voltada para, antes de tudo, alimentar a nação antes de ser vendida a valores pífios ao exterior. Aí a gente vai poder visar crescimento.

    Do mais, estou curtindo muito os posts. Que suas experiências no exterior sejam cada vez mais saborosas de serem descobertas. Abs.

  3. Pingback: Hong Kong – O Que Vimos e Quanto Gastamos | Os Incomodados que se Mudem!

  4. Adorei o post! estou planejando uma viajem para Asia em jan/17 e pro coincidência passaria o ano novo chinês em HK. Como só vou passar 3 dias la estou um pouco preocupada se haverá programas abertas se vou conseguir fazer umas comprinhas e etc… as lojas de rua shopping e pontos turisticos estavam tudo aberto?
    obrigada

    Abs

    • Oi Veridiana,

      A Ásia é uma festa e Hong Kong em especial não para nunca. Pode ir despreocupada, sempre haverão lojinhas de conveniência, shoppings e demais estabelecimentos abertos, inclusive durante o ano novo chinês.

      Boa viagem e boa sorte!

  5. Bom dia CAsal
    estou querendo ir para Hong Kong para comprar semijoias ,
    por acaso vocês viram alguma feira ou fábricas por la?
    saberiam me indicar alguma?

    • Oi Breno,

      Em geral chineses gostam muito de ouro e joias em geral, a gente até viu muitas lojas, mas infelizmente não sabemos informar sobre fábricas e feiras.

      Boa viagem e boa sorte!

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