Reflexões de 1 Mês de Viagem – O Que Aprendemos?

Um mês fora do Brasil passou voando, mal deu pra sentir!
Mentira, deu sim.

Afinal, são 30 dias sem ouvir funk.
30 dias sem ver cracudo.
30 dias sem sinais da banalização da violência.
30 dias sem pagar preços absurdos pelas coisas.
30 dias sem privações de água ou de luz.
30 dias da mais absoluta… paz.

Quando tomamos a decisão de sair do país por um ano para viajar pelo mundo, ficamos ansiosos pelo aprendizado que iríamos obter com essa experiência. Só não imaginávamos que aprenderíamos tanta coisa em tão pouco tempo.

Reunimos aqui algumas das reflexões que tivemos nesse primeiro mês, pautadas em nossas observações cotidianas. Lá vai:

1) 99,9% DAS PESSOAS SÃO BOAS

Acostumados a viver em um país onde desconfia-se até da Polícia e da Igreja, foi complicado mudar nossa visão.

Esse é um discurso clichê e até meio hippie, confesso. Mas é a mais pura verdade: por onde andamos, temos conhecido gente maravilhosa, solícita, educada e, independente de classe social, íntegras e pacíficas.

Pessoas que não têm a menor obrigação de lhe prestar apoio algum, e ainda assim, moverão mundos e fundos para lhe auxiliar, sem esperar nada em troca a não ser um sorriso.

Sim, o 0,01% existe, e quando aparecer vai causar bastante stress. Mas no final das contas, seu número será tão desproporcional que logo será esquecido.

2) NOSSOS PROFESSORES ESTAVAM ERRADOS

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Como todos da nossa geração, aprendemos um monte de bobagens na escola. Entre elas, aquele velho discurso de que o Brasil alimenta o mundo, de que a Amazônia é um tesouro cobiçado pelas “nações imperialistas”, e de que lugar mais lindo que o Brasil não há: somos abençoados por Deus e bonitos por natureza.

Em primeiro lugar: o mundo pode viver muito bem sem soja e café, nossas grandes “contribuições” para a balança comercial.

E ao contrário do mundo que nos pintaram, desértico e sem verde, até agora temos visto paisagens naturais exuberantes, incrivelmente preservadas e com uma fauna e flora igual ou maior do que as brasileiras. Mesmo com a Amazônia e a Mata Atlântica, o Brasil não é exemplo pra ninguém: nossos índices de desmatamento são tão grandes que fazem vergonha até à China.

O que nos leva a acreditar que viver no Brasil cada vez mais se parece como viver em uma bolha.

3) O BRASIL NÃO TEM A MENOR RELEVÂNCIA NO CENÁRIO INTERNACIONAL

O Brasil já tentou várias vezes um assento no Conselho de Segurança da ONU, e nunca conseguiu. E nem vai, nunca. Quem se importa com a opinião do Brasil?

Mesmo com problemas internos gravíssimos, o Brasil acredita que tem condições de enviar ajuda humanitária ao Haiti, enquanto apoia regimes totalitários patéticos e suas ambições nucleares; dá legitimidade à ditaduras comunistas e ainda tenta fornecer conselhos inúteis ao mundo em reuniões onde somos educadamente ignorados pelos países sérios que possuem coisas mais importantes para por em pauta.

Se houvesse uma espécie de “Ranking de Países por Relevância”, dividiríamos a mesma posição com a… Jamaica! Todo mundo ama a Jamaica: o reggae, a maconha e a garra esportiva dos meninos do filme Jamaica Abaixo de Zero.

Eis o Brasil: Troque o Reggae pelo Samba, mantenha a maconha, e troque o esporte do filme pelo futebol. O Brasil é a Jamaica! Todo mundo ama o Brasil!

Se tem uma coisa que percebemos, é que a figura de Bob Marley é onipresente em todo o mundo, assim como a bandeira verde-e-amarela. Dada a sua vocação de ficar estampada nos chinelos e nas cangas, parece-me ser muito mais provável continuarmos a vê-la ainda por um bom tempo sob os pés e as bundas dos gringos, do que nos mastros das grandes convenções.

4) O CAOS SOCIAL BRASILEIRO CONSEGUIU ATINGIR A MAIOR DAS INSTITUIÇÕES: A FAMÍLIA.

Tão logo divulgamos nossa viagem, muitos vieram nos parabenizar, alertando-nos que aproveitássemos bastante esse tempo, porque “quando vier os filhos…”

Alguns chegaram até a nos relembrar os princípios básicos da contracepção, afinal, uma gravidez não planejada poderia ser “o fim da aventura”.

Enquanto isso, vamos observando como é o relacionamento de pais e filhos por onde vamos passando:

Nas trilhas que fizemos, mesmo em meio aos obstáculos encontramos pais carregando seus filhos dentro do mochilão. Em uma rua movimentada, uma mãe também carrega seu filho em uma espécie de bolsa de canguru, dando-lhe papinha enquanto fala com o celular na outra mão. Andando. Nada parece lhe atrapalhar.

Em uma outra praia, o pai surfista é acompanhado do filho, que tem no máximo cinco anos mas já carrega sua própria pranchinha, e não contente em encarar as ondas, vai seguindo o pai até a parte mais funda do mar. A irmãzinha, de idade aproximada, parece não ter tanto talento para o surf, mas com sua roupa térmica resolve aproveitar a oportunidade para praticar o nado, mergulhando e dando cambalhotas na água.

Crianças locais, peladinhas, se divertem na praia, enquanto algumas crianças estrangeiras, também nuas, rolam na areia, engolem água do mar, fazem castelos e brincam sem parar. Os pais estão relativamente por perto, alguns bem distraídos. E por onde quer que se olhe, o único perigo que parece atingir aquelas crianças é o risco de se queimarem muito com o sol.

Os exemplos não param. Por onde quer que se vá, não vemos uma criança sequer no colo. Nem mesmo bebês. Os pais dão um jeito de acoplá-los ao corpo, das mais diversas formas, e com eles seguem andando, correndo, pedalando e até de skate.

Por que não vemos isso no Brasil? Por que ter um filho em nosso país é como adquirir uma deficiência física, uma muleta que vai lhe obrigar a comprar um carro, trocar de casa, cultivar uma barriga e deixar de viver plenamente pelos próximos anos?

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Caramba, até os argentinos são felizes viajando com sua renca de filhos!

Somente fora do Brasil vimos que os filhos podem ser sim verdadeiros companheiros dos pais. Independentes da idade, não são estorvos nem empecilhos, mas sim bênçãos. Uma razão a mais para se divertir e querer sair de casa. No Brasil, a vinda de uma criança é quase sempre um atestado de óbito da vida social.

A que ponto chegamos? A quem queremos enganar, achando que a situação de insegurança e altíssimo custo de vida no Brasil é “normal”, e no final das contas acabar culpando esses pequenos anjinhos pela mudança radical de estilo de vida ao decidir criá-los nesse país?

Nossas crianças trocaram as brincadeiras nas ruas pelos videogames; os campinhos de futebol e a bicicleta pelo playground do condomínio de vigilância 24 horas. Felizmente, fora do Brasil (e das zonas de guerra), o tempo do medo ainda não chegou. As crianças continuam a se divertir livremente… e os pais também.

E isso nos fez até repensar nossas ideias. Sim, nós, que nunca cogitamos ter filhos, já que fomos a vida inteira condicionados a isso, agora começamos a gostar da ideia de ter alguns catarrentinhos no futuro.

Mas com uma condição: nossos filhos não terão RG nem CPF.

5. A CLASSE MÉDIA EMERGENTE É UM FENÔMENO GLOBAL

Esqueça o Lula, esqueça a Dilma. Se você hoje tem uma vida relativamente mais confortável do que há alguns anos, com maior acesso a bens de consumo e serviços, agradeça à China e as grandes corporações.

São estes os responsáveis por proporcionar ao mundo um maior acesso aos automóveis, eletrônicos, roupas e etc., utilizando-se dos últimos recursos naturais de um planeta doente para girar a economia e, dessa forma, alavancar lucros e, em menor escala, distribuir renda entre a população global através de contratos políticos que fomentam à facilitação do crédito e concessão de subsídios.

Crianças chinesas têm suas próprias Nikon profissionais. Taxistas indonésios dirigem Toyotas e Hilux em um trânsito louco cheio de Kawasakis. Adolescentes muçulmanas de véu e vestes simples compartilham fotos pelo iPad. Cada vez mais gente viaja de avião pelo mundo.

E você aí sem conseguir pegar o sinal da Vivo...

E você aí sem conseguir pegar o sinal da Vivo…

O governo brasileiro não é nem um pouco responsável por todo o avanço dos últimos anos na ampliação do acesso ao consumo ou até mesmo no combate à pobreza no Brasil. Nem sequer foi capaz de reduzir a alta carga tributária ou flexibilizar as leis trabalhistas que impõe um atraso vergonhoso em comparação aos outros países. Apenas surfou na onda do crescimento alheio e não produziu absolutamente nada.

A realidade é essa: o mundo todo avançou. Até mesmo as economias mundiais mais subsistenciais se fortaleceram, investindo em educação e infraestrutura. Já o Brasil… bem, garantimos a Copa do Mundo desse ano, não é mesmo?

6) VOCÊ É AQUILO QUE VOCÊ QUER SER

O que leva um indiano morador de uma favela, em um dos países mais miseráveis e populosos do mundo, sair de sua condição de extrema pobreza e virar um engenheiro bem-sucedido?

O que leva uma menina bonita, nascida na Europa e habituada aos maiores indicadores de alto IDH do mundo, a abusar das drogas e do álcool, se vestir como uma periguete e agir vergonhosamente nas ruas?

Analisando as duas situações distintas, e tantas outras que nos são demonstradas, só chegamos à uma conclusão: Você é aquilo que você quer ser.

O ambiente pouco importa, sua formação é só um detalhe e “destino” é pura invenção. Com um pouco de esforço e fé em Deus, se chega em qualquer lugar. E sem eles, as chances de não se chegar a lugar algum são imensas.

Se fôssemos aceitar o que a vida nos impôs, Carol e eu estaríamos vivendo em um dos países mais violentos e corruptos do mundo, infelizes com nossos empregos e endividados pelos próximos 35 anos atrás de um sonho que nunca foi nosso.

Simplesmente decidimos fazer diferente e ser o que sempre quisemos ser.

7) EXCETO PELA PROXIMIDADE DA FAMÍLIA E AMIGOS, NÃO HÁ MOTIVOS RACIONAIS PARA QUERER VOLTAR AO BRASIL

O mundo é um lugar incrível e cheio de oportunidades. As pessoas precisam se vestir, se alimentar, se locomover. Produtos e serviços precisam ser vendidos e atender as necessidades exigidas. Com alguma ideia em mente e algum capital no bolso, é possível sustentar-se em qualquer lugar de acordo com padrões de vida bem aceitáveis. Pra que se limitar?

Não somos monstros insensíveis. Temos família, amigos, e os amamos. Na verdade, morremos de saudades.

Mas mesmo durante esse pouco tempo que estamos fora do Brasil, já conseguimos perceber que a dor de ter de voltar vai ser bem maior do que a dor da distância. Não me entendam mal: hoje em dia, é possível manter a proximidade via Skype, Facebook, etc. Entretanto, ainda não é possível dar um CTRL+ALT+DEL na arma do bandido apontada para sua cabeça, tampouco diminuir os preços abusivos com o mouse ou desfazer a parte do seu dinheiro que é desviada para a corrupção.

Acredite, quando você tenta explicar o número de mortes violentas do Brasil para os estrangeiros, ou traduzir os termos “arrastão”, “saidinha de banco”, “sequestro relâmpago” e não conseguir ser compreendido, mesmo descrevendo exatamente os atos, é porque algo saiu muito errado com o seu país. Ele simplesmente… fracassou.

Desculpe, mas é isso que aprendemos até agora.

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5 respostas em “Reflexões de 1 Mês de Viagem – O Que Aprendemos?

  1. Bem concordo em tudo, só uma observação, para aqueles que não tem mais família, parentes e os poucos amigos de verdade, tem um celular ou PC ou notebook e acesso a internet e uma conta em alguma mídia social, a vai né… pra que não ir embora desse lugar podre chamado brasilzinho… nestas condições nunca voltaria, ou melhor deixa só eu conseguir finalizar algumas pendencias aqui nessa coisinha chamado brasilzinho que eu vou ser o próximo a ir e nunca mais voltar…
    Aproveito para pedir, posta ai os lugares onde vocês viram menos brasileiros, porque quero passar longe, não que o povo seja culpado, alias nunca foi, mas o problema e que quero até esquecer esse idioma e nunca mais falar e lembrar nenhuma letra ou vogal sequer em português e ai estando onde tem muito brasileiro isso vai ser impossível…
    Grande abraço… e mande mais dicas aí, porque a mochila esta pronta, falta apenas agora, as finanças e um estudo para aprender o máximo do inglês, pra não ir somente com o espanhol… porque o português assim que embarcar no voo nunca mais eu pronuncio uma só palavra…

    • Oi, Thellos, obrigado por acompanhar o blog.

      Esse é só a primeira das nossas reflexões. Com o tempo, vamos postando mais coisas e dando mais dicas. Em relação aos brasileiros, encontramos poucos em Hong Kong, alguns em Macau e bastante na Indonésia – aliás, até demais: quando percebem que somos do Brasil, até os locais falam algumas coisas em português com a gente, geralmente palavrões, mesmo sem saber, já que só repetem o que lhes ensinaram…

      Temos uma página no blog sobre o nosso planejamento financeiro, talvez lhe dê algumas ideias de como ir poupando. E sim, o inglês é importantíssimo, sem ele a situação fica bem complicada. Foque nisso por enquanto e o resto vem automaticamente.

      Grande abraço, boas viagens e boa sorte!

  2. Amei o post. Creio que vocês estão compreendendo como é difícil voltar ao Brasil e como nós sofremos em perceber como o mundo é melhor que o país que a gente nasceu e gostaria de amar. Por outro lado tem aquele aprendizado positivo: todo mundo é bom. Isso foi uma das nossas melhores descobertas. Boa sorte.

  3. Pingback: Reflexões de 2 Meses de Viagem | Os Incomodados que se Mudem!

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