Comer, Rezar e Amar em Ubud

14º ao 16º dia – Ubud, 10 a 12 de Fevereiro de 2014, Indonésia.

Kuta é uma bagunça, como imaginávamos. Tão logo nos aclimatamos a essa nova realidade que é a Indonésia, decidimos trocar as praias e os camelódromos pelo simpático interior de Bali, onde a cidade de Ubud – cenário do filme Comer, Amar, Rezar – nos reservaria experiências inesquecíveis.

Transporte público simplesmente não existe em Bali, ou você anda de táxi ou aluga uma moto. Encontramos uma opção intermediária e mais econômica: reservamos um translado com a empresa Perama Tour, a única companhia a realizar esse tipo de serviço por aqui. Comprando a passagem de ida-e-volta sai mais barato, e por 40.000 rúpias o trecho (U$3,50), em 1 hora chegamos à terra dos campos de arroz e templos infinitos.

E que templos! Estão espalhados por todos os locais, tão presentes no dia-a-dia dos moradores que é difícil entender o que de fato é um templo e o que é só um estabelecimento imitando a arquitetura.

Assim como em Kuta, as oferendas espalham-se pelas calçadas – o que inevitavelmente nos faz pisar em várias delas. O cheiro forte de incenso às vezes incomoda, e pouco a pouco vamos notando que toda a religiosidade desse povo não é uma atração turística, mas sim uma parte real da vida deles.

Apesar de estar longe do mar e até ser considerada uma cidade serrana, a temperatura de Ubud é bem quente. Some isso à toda a atmosfera mística-religiosa da cidade e o resultado é uma letargia difícil de ser superada. Foi com certo sofrimento que andamos pelos becos até encontrar nossa hospedagem, o Swan Inn Homestay.

Apesar do ambiente meio antigo, por U$14 tínhamos internet, café-da-manhã e uma boa localização. As homestays são exatamente isso: “estadias em casa”. Geralmente um morador local aproveita o espaço do seu quintal e constrói vários quartinhos – quase sempre melhores e mais equipados do que sua própria casa -, deixando um lugar reservado no gramado para os altares de seus deuses. É impossível fugir a ambientes como esses, e de tão parecidos, é fácil se confundir e entrar na homestay errada.

Mesmo tirando um cochilo, o cansaço mental não passou. Todos os sentidos são estimulados ao extremo em Ubud. Felizmente, o paladar também é um dos beneficiados.

Decidimos ir almoçar no Ibu Oka, um dos estabelecimentos mais tradicionais de Ubud. O ambiente é tipicamente balinês, e além da arquitetura padrão, há uma mesinha rebaixada e os clientes comem sentados no chão. Experimentamos o Babi guling special, um prato baseado em carne de porco assada com arroz e diversas outras coisas impossíveis de ser identificadas, mas ainda assim muito boas. Temos quase certeza de que havia um chouriço no meio. Um coco gigante acompanha nossa aventura gastronômica, e tudo sai em torno dos U$5.

É interessante notar como os preços da alimentação em Bali são bem baixos e, mesmo em ambientes mais sofisticados, a diferença de valores não é significativa. Comer nasi goreng ayam (arroz frito com frango, ovo e vegetais) e tomar um chá gelado ou água de coco custa em torno de U$2,50 para duas pessoas, mas ir a um ambiente mais turístico e provar pratos ocidentais ou caprichados em frutos-do-mar não custa mais do que “o dobro”. Nada extorsivo.

Se tratando de comer em Bali, estamos muito bem. Fizemos uma farra comendo todo dia Pringles, Magnum Yakult, marcas que custam o olho da cara no Brasil, mas que por aqui são encontradas em qualquer esquina, vendidas a preços acessíveis até para os locais.

A previsão do tempo para o próximo dia era de chuva, e nem adiantou rezar. Uma chuvinha chata nos acompanhou o dia inteiro, o que mesmo assim não nos impediu de descobrir pedalando um pouco mais das paisagens rurais de Ubud.

Uma estradinha pouco movimentada vai nos levando através de casas simples e templos sempre presentes, emoldurados pelo verde das plantações de arroz. A paisagem é de uma calmaria só, e precisávamos muito respirar um ar livre de fumaça de incenso.

No caminho, começamos a perceber que as eleições por aqui estão se aproximando. E é claro, propagandas políticas estão por todo o canto. Como sabemos isso? É que os políticos tem a mesma cara em todo o mundo…

Os nomes dos candidatos, aliás, revela uma interessante curiosidade em Bali: pelo menos entre os hinduístas, os nomes aqui são sempre os mesmos, e variam de acordo com a ordem de nascimento. Por exemplo, o primogênito sempre se chamará “Wayan”, “Gede” ou “Putu”. O segundo filho será “Made” ou “Kadek”. O terceiro será “Nyoman” e o quarto será “Ketut”. Se a mulher tiver mais filhos, volta tudo desde o começo!

bahasa indonésio, idioma falado por aqui, é bem simples de ser aprendido, sem muitas regras gramaticais e com uma pronúncia simples para quem está acostumado com o português. Inclusive algumas palavras são iguais as nossas, mas com significados completamente diferentes. Enquanto vamos aprendemos o básico da língua para podermos nos virar nos restaurantes, vamos rindo de algumas coincidências linguísticas que insistem em aparecer…

Aproveitamos o final do dia para visitarmos uma das atrações mais famosas de Ubud: a Monkey Forest.

O lugar é lindo, cheio de árvores enormes e exuberantes. Mas é claro, a principal atração são os animais que dão nome à atração. Os macaquinhos estão por toda a parte!

Bem menos fofos do que parecem, e muito mais interesseiros, os pequenos primatas correm para todo o lado, brincam, catam piolhos, e não deixam os turistas em paz. Para aqueles que lhes trazem banana ou biscoitinhos, eles logo viram amigos, subindo em cima da pessoas e posando para fotos. Já para quem aparece de mãos vazias, uma olhar de desprezo basta…

Ainda veríamos muitos deles em Bali… Aqui é o verdadeiro “Planeta dos Macacos”, e assim como no filme, os símios daqui parecem estar a um passo de dominar os humanos. Alguns chegam a realizar pequenos furtos, capturando óculos, bolsas e bonés dos turistas mais incautos e só devolvendo mediante um lanchinho.

Só havíamos reservado dois dias no Swan Inn e logo precisávamos encontrar um novo lugar para ficar. Acabamos esbarrando no Donald Homestay, onde uma senhora simpática nos ofereceu um quarto com café-da-manhã incluso por U$8. Que beleza! Fechamos na hora, mas mal sabíamos a péssima escolha que havíamos feito.

O lugar até era arrumadinho, mas algumas coisas eram medonhas. E nem me refiro às moradoras bem velhinhas que de vez em quando passeavam sem camisa no jardim…

A porta do quarto que não fechava ou as aranhas enormes que encontramos no banheiro também não foram um problema. A situação complicou-se realmente à noite, quando barulhos estranhos no teto impediram completamente a chance de termos uma boa noite de sono.

Mais tarde viemos a descobrir que tratava-se do canto de um pássaro bem comum em Bali, mas como convencer Carol disso, de madrugada, enquanto duas deusas hindus esquisitonas nos encaravam no quadro em cima da cama? E como se não pudesse ficar pior, comecei a sentir picadas estranhas… até que percebi que a cama estava infestada de bed bugs, insetos chatos que sugaram nosso sangue durante toda a noite e deixaram marcas violentas no lençol. Impossível dormir.

Na manhã seguinte fizemos nosso desjejum e saímos correndo do lugar. Chega de perrengue, já basta aquele de Hong Kong! Agora era hora de pegar a moto que havíamos alugado no final do dia anterior e seguirmos velozes e furiosos (ok, nem tanto) pelas estradas de Ubud que a chuva havia nos impedido de conhecer completamente de bicicleta.

Em tempo: eu nunca havia pilotado uma moto na minha vida. Mas nossa pequena scooter parecia bem simples de ser manejada. Assisti a um vídeo no Youtube (!) e aprendi o básico. Era hora de acelerar a motinho, que mal alcançava os 40 km/h, e sentir o gostoso sabor da liberdade!

Sendo uma ilha sem transporte público e com uma fiscalização meio frouxa, alugar uma moto por aqui é a melhor decisão que pode ser feita para explorar o lugar. O valor é a partir dos U$4 a diária, e o combustível é baratíssimo. Aquela não seria a única vez que nos permitiríamos uma vida de James Dean!

Sim o trânsito é louco. Sim, o trânsito é caótico. Mas nem de longe é violento como o de qualquer metrópole brasileira. Não vimos um acidente sequer durante nossos 24 dias em Bali. Mesmo sem uma noção correta de mão ou contramão, todo mundo se respeita e acabam se entendendo, sem brigas ou arrancadas. Até a buzina é rara por aqui, sendo usada somente para sinalizar ultrapassagens.

O engarrafamento concentra-se somente nas áreas principais de Ubud. Saindo dali, seguimos sem maiores problemas em direção à Tegalalang, onde as belas plantações de arroz mostram todo o seu charme. As paisagens são de tirar o fôlego!

Dizem que a cidadezinha hoje em dia está muito turística e já perdeu muita de sua autenticidade. Pode até ser. De toda forma, é incrível contemplar toda aquela paisagem e notar que mesmo com todo o desenvolvimento do turismo em Bali nos últimos anos, a ilha permanece mantendo sua cultura local, seja em relação à religião ou a agricultura.

Pelo caminho vamos encontrando vários Warungs, pequenos restaurantes de pratos tipicamente indonésios,  com preços ainda mais baratos do que no centro de Ubud. E lá vamos nós matar a sede com mais água de coco.

Comemos até nos empanturrarmos, rezamos para que os macacos não nos mordessem e a moto não caísse, e por fim vimos que é impossível não amar Bali.

Nossos três dias em Ubud vão chegando ao fim. Gostamos bastante do lugar, que tem um clima bem mais familiar do que o de Kuta. Ali é possível não só desfrutar de belas paisagens como também comer muito bem e ter acesso a uma excelente infraestrutura de mercados e farmácias sempre disponíveis e com o melhor atendimento possível.

Apesar disso, a atmosfera de Ubud é de uma idolatria sem igual, e confesso que ao contrário da Julia Roberts, não estávamos em busca das respostas para nossas vidas através dos gurus e seus templos. Sequer assistimos as tradicionais cerimônias religiosas que acontecem por aqui, famosas por seus cantos e danças exóticas.

Mas ficamos mesmo é com muita inveja daqueles macacos da Monkey Forest. Os bichinhos só sabiam acasalar, comer e dormir. Caramba, queríamos uma vida dessas também!

Mas com uma pequena diferença: dessa vez, queríamos curtir as melhores praias de Bali! Para isso, cairíamos na estrada novamente até a península de Uluwatu, ao sul da ilha, onde conheceríamos os lugares mais deslumbrantes dessa viagem… até agora!

Próxima parada: Padang Padang!

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3 respostas em “Comer, Rezar e Amar em Ubud

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