O Dia que demos um Golpe em um Golpista

23º dia – Kuta/Padang Bai, 19 de Fevereiro de 2014, Indonésia.

Ser brasileiro é ruim, mas é bom. Entenda:

Estávamos precisando trocar alguns dólares, já que iríamos passar uma semana em uma ilha sem caixa automático. Por aqui existe uma casa de câmbio em cada esquina, e entre elas, vários pequenos estabelecimentos que também trocam dinheiro, geralmente à uma taxa ligeiramente melhor do que os lugares oficiais. Essa atividade não chega a ser ilegal, é apenas informal mesmo, já que não há controle e nem emissão de recibo. Como estávamos atrasados para pegar um ônibus, resolvemos ir trocar em um estabelecimento desses.

Um hindu com jeitão de indiano apareceu para nos receber, perguntando quanto precisaríamos trocar. Fez uns cálculos e mostrou-nos o valor da conversão. O Sudeste Asiático, apesar de ser um lugar pacífico, é conhecido por ser o lar de diversos golpes contra turistas, e maquiar cálculos de conversão usando calculadoras pré-programadas é um deles. Mas nós também havíamos feito nossos próprios cálculos no celular e vimos que o valor batia, ou seja, não estávamos sendo roubados.

Estávamos trocando U$100, o que corresponderia a Rp. 1.200.000 (um milhão e duzentas mil rúpias). Ele pediu desculpas por só ter notas pequenas, de 20.000 rúpias, e logo foi começando a contar. Eu, sempre atento, acompanhava a contagem dele, e depois pegava o dinheiro na mão e fazia minha própria contagem novamente. Seguiu-se o mesmo procedimento por várias vezes seguidas, até que todas as notas formassem um maço bem grande no balcão.

O valor estava certo e tudo parecia normal, mas ao terminarmos de contar ele resolveu “juntar” o dinheiro espalhado na mesa. Foi tudo MUITO RÁPIDO, ele fez um vuuupt, juntou tudo na mão e me deu. E antes que fizéssemos menção de contar de novo, malandramente ele avisou que era pra “guardar logo o dinheiro na carteira, por que a rua tá cheia de gente”, como se os índices de roubo na Indonésia fossem parecidos com os do Brasil…

Caí na ladainha dele, botei o dinheiro na moneybelt, agradeci e saí. Mas tanto eu quanto a Carol ficamos com a sensação que o movimento dele ao juntar o dinheiro foi muito rápido, muito estranho. Resolvemos contar o dinheiro novamente. E para nossa surpresa, ao invés de 1.200.000 rúpias, haviam somente 800.000 rúpias. O malandrão havia nos surrupiado 400.000 rúpias (+-U$35) num PASSE DE MÁGICA. Vapt, vupt, simples assim.

Pelo menos o cara era talentoso.

Fiquei bem chateado e resolvi passar em frente à loja dele. Não queria briga nem confusão, apenas queria chamá-lo de ladrão. Juro, era só isso que eu ia fazer. Mas assim que eu voltei e encarei o sujeito, ele SE CAGOU DE MEDO. Fez uma cara de choro, foi dando uns passos para trás. Verdade seja dita: os malandros aqui não são como os malandros brasileiros. Os daqui não são violentos, pelo contrário, são verdadeiros bebês chorões, covardes, cheios de medo à primeira menção da palavra “polícia”.

Não existe impunidade em um país com pena de morte…

Percebendo que eu tinha o controle da situação, fui me aproximando lentamente do balcão, e com a cara mais cínica que pude fazer, falei: “Belo truque, buddy. Você é mágico? Legal! Me ensina a fazer isso aí?”

Ele ficou gaguejando, tirou umas notas de 50.000 rúpias e jogou no balcão, implorando I’m sorry, I’m sorry. Peguei as notas satisfeito e fui indo embora… até notar que o cara só havia me dado 4 notas de 50.000, ou seja, ainda faltavam 200.000 rúpias! O bonitão estava querendo me fazer de otário pela segunda vez.

Aí eu não aguentei… voltei de novo, com mais cara de macho ainda (e ele se borrando, todo acuado), e comecei a falar todos os impropérios em bahasa e inglês que sei. “Você é o Mr. M? É o David Cooperfield? Devolve o meu dinheiro A-G-O-R-A, ou eu chamo a polícia, seu ladrãozinho!”

Reconstituição fiel da cena

Reconstituição fiel da cena

Ele ainda tentou argumentar, mas continuei firme: “Rapaz, você vai para o inferno dos hindus! Vishnu vai pegar no teu pé, você vai pegar um karma bem grande e vai reencarnar numa barata!!!”

O pior é que eu estava em um tom super sério, falando bem alto. Hindus têm horror a isso. Existe algo na cultura deles chamado “perder a face”, que é sinônimo de perder a honra através da vergonha pública. E nessa hora, já havia um monte de gente por perto acompanhando a discussão. Até colegas que trabalhavam com ele, reprovando completamente a sua conduta.

Ele pegou de volta a minha nota de U$100 e fez que ia devolvê-la. Fui pegar e o bonitão falou: “não, meu dinheiro primeiro”. Aí eu falei mais abobrinhas ainda: “Você tá achando que eu sou mágico que nem você? Rapaz, no meu país a gente tortura até a morte pessoas do seu tipo! Eu quero o meu dinheiro, pode devolver agora!”.

Nesse meio tempo, dei ouvidos ao diabinho com sotaque carioca do lado da minha cabeça, que disse: “Pô, esse cara tentou te roubar 400 mil rúpias, agora tu vai devolver tudo pra ele, pegar teu dinheiro e vai ficar tudo por isso mesmo? Que lição ele vai aprender disso, rapá?”

Então, enquanto ainda discutíamos, comecei a contar o dinheiro na frente dele da forma mais completamente zoneada possível, e sem que ele percebesse, escondi 100.000 rúpias (+-U$10) no meu bolso…

Sim, dei o golpe no golpista. Sim, isso é feio, muito feio.
Mas poxa, ele mereceu.

Nem terminei de fingir que contava, ele se deu por vencido e tirei de volta a nota de dólar da mão dele. Devolvi as rúpias sobre o balcão da forma mais estúpida possível e mandei um “se vira!”.

Tão logo estávamos fora da loja, saímos apressados atrás de uma casa de câmbio oficial, trocamos nosso dinheiro e fomos embora. Não sem antes nos sentirmos um pouco Bonnie e Clyde, correndo como loucos nos becos e quebradas de Bali, achando que poderíamos estar sendo seguidos.

O trambiqueiro tentou nos dar um golpe e roubar 400.000 rúpias, perdeu tudo e ainda saiu no prejuízo de 100.000!

Ao menos ele aprendeu uma grande lição: nunca roubar… brasileiros!

PS: Sabemos que isso tudo é errado, e ao contrário do que possa parecer, não nos orgulhamos nem um pouco. Tanto que logo nos desfizemos desse dinheiro, distribuindo-o entre esmolas para alguns moradores de rua – que ficaram muito felizes ao recebê-los, aliás.

Afinal, sei lá, não queremos reencarnar em uma barata 🙂

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5 respostas em “O Dia que demos um Golpe em um Golpista

  1. Pingback: Indonésia é Amor | Os Incomodados que se Mudem!

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