Singapura – (Des)complicada e Perfeitinha

36º Dia – 03 de Março de 2014, Singapura.

Nossa chegada em Singapura não foi a das melhores.

Durante a fase de pouso do voo, comecei a sentir um desconforto que logo virou uma forte dor de ouvido. E de repente eu estava surdo, era isso. Carol falava comigo e eu não ouvia nada, para total desespero dela, que a essa hora já estava chorando. E eu também, de dor. Quase desmaiando, balbuciei um inútil pedido de ajuda à comissária: um remédio, uma máscara de ar, um tiro na cabeça, qualquer coisa que diminuísse aquela sensação perfurante nos meus tímpanos. Em um voo de companhia de baixo-custo onde até a água é paga, a aeromoça não fez muita coisa: apenas me deu um sorriso amarelo como resposta. Eu que me danasse, pronto.

Já em terra, fui andando meio zonzo pelo saguão do Singapore Changi Airport, com dor de cabeça e a audição bem prejudicada. Se continuássemos daquele jeito a imigração iria ser bem interessante: Carol sem falar inglês e eu sem poder ouvir. Uma muda e um surdo, que dupla!

Precisava de um banheiro, lavar a cara, me olhar no espelho e tentar ver que dentro de tanta dor ainda havia uma pessoa. E então, surpreendentemente algo dentro daquele toilet começou a me fazer sentir melhor. Talvez o cheiro de limpeza, a iluminação de bom gosto ou a decoração com uma mini cachoeira (!) próxima às pias, não sei. Fato é que senti um dolorido “PLOFT” no ouvido esquerdo, e em seguida um “PLOC” no direito. Machucou, mas pelo menos havia recuperado uns 20% da minha audição. O suficiente para identificar o som ambiente, baixinho: uma versão instrumental de Águas de Março, de Tom Jobim. Como essa música combina com um banheiro!

Era o banheiro mais agradável que eu já tinha pisado. Na saída, uma tela touchscreen pede para que eu lhe dê uma nota de avaliação. O olhar do faxineiro é intimidador. Ele não tem cara de coitadinho, nem de que precisa do meu voto. Segurando sua vassoura como o pastor que segura seu cajado ou o ninja que desembainha sua espada, ele telepaticamente parece me dizer: “Brasileiro idiota. Você acha que é capaz de deixar um banheiro brilhando como esse? Você acha que é digno de viver em Singapura como eu?”.

Derrotado, não me resta escolha e pressiono o rostinho feliz. Votei em “Excellent”. Duas vezes.

Cada um escolhe o melhor método de se recuperar de um voo terrível como aquele. Carol, por exemplo, aproveita a cadeira de massagens gratuita. Singapura já nos mimava sem que nem mesmo tivéssemos nossos passaportes carimbados.

A Imigração é rápida e eficiente. Sem perguntar para onde vamos ou pedir pelo bilhete de saída (que não tínhamos), somos liberados. Não sem antes ganhar uma balinha personalizada do aeroporto. Welcome to Singapore!

Como qualquer país decente, há um metrô que sai do aeroporto em direção a todos os cantos da cidade. É interessante notar os tipos que vamos encontrando: indianos, árabes, chineses e ocidentais. Há mais diversidade étnica em um vagão do MRT de Singapura do que em toda São Paulo.

Com o dia amanhecendo, vamos olhando pelas janelas do metrô e nos surpreendendo com a paisagem: Ao contrário de Hong Kong, não existem tantos prédios por aqui. Casas e prédios “normais” dividem harmoniosamente o espaço entre ruas arborizadas. Tudo dá um ar de organização, mas não de riqueza. Singapura é um dos países com a maior concentração de milionários do mundo, e era muito provável que alguns deles estivessem ali conosco naquele veículo. Esse é um país rico que não transparece ostentação, mas sim frugalidade.

Propaganda do metrô anunciando descontos para aqueles que embarcarem mais cedo: – “Eu saio para trabalhar cedo e poupo dinheiro!” – “Eu começo a trabalhar mais cedo ainda e posso sair cedo do escritório para comprar mais!”

Mesmo após uma noite inteira de trabalho, nossa anfitriã vai nos buscar na estação. Vanessa é a segunda geração de uma família singapuriana, o que é algo bem raro, já que esse ainda é um país jovem e com uma história bem recente. A maioria dos que ali vivem são imigrantes. Tivemos a sorte de nos imergirmos totalmente em uma cultura a partir da visão dos locais. Devidamente alojados, é hora de partir para o centro e nos depararmos com o urbanismo da cidade-nação.

Invista pesado em transporte público e restrinja a compra de carros para aqueles que possam arcar com os altos impostos e mais U$70.000 de licença para dirigir. Eis a receita da cidade onde congestionamentos no trânsito simplesmente NÃO EXISTEM.

Começamos nossas andanças pela Marina Bay, região com os mais famosos e bonitos prédios.

O lugar é lindo e certamente tem uma das vistas mais privilegiadas da cidade. Mas precisava mesmo colocarem tantas espreguiçadeiras no caminho? Ainda cansados da viagem de avião, não resistimos a tentação e dormimos umas duas horas por ali, deixando a mochila no chão mesmo. Desnecessário dizer que, ao acordar, ela encontrava-se no mesmo lugar.

Teríamos dormido bem se não fosse o sol forte do meio-dia, que começou a nos torrar vivos. Singapura tem um clima tropical e está localizada praticamente em cima da linha do Equador. Em outras palavras: faz calor pra caramba!

Fugimos de lá através de uma das modernosas passarelas do local…

…Hora com vista para o imponente Marina Bay Sands, o famoso prédio com uma piscina “sem fim” no topo…

…e também a famosa roda-gigante, que se move tão lentamente que até parece estar parada.

O lugar é de tirar o fôlego, excelente para tirar algumas boas fotos e ir entrando no clima de Singapura. Vamos seguindo em frente e ficando de boca aberta com o bom gosto da arquitetura desse lugar.

Se perder em Singapura – se é que isso é possível em uma cidade tão pequena – é um prazer. As ruas são limpíssimas, e chama a atenção a harmonia entre o verde e o concreto.

Seguimos pela Orchard Road, famosa rua repleta de shoppings da região.

Entrar nos shoppings é algo que vamos fazendo frequentemente conforme vamos andando pela rua. Não tanto pela vontade de comprar alguma coisa, mas sim para aproveitar os potentíssimos ar-condicionados e fugir do calor do mundo real.

Acabamos esbarrando na rua com uma simpática barraquinha. Hora e clima perfeito para experimentar por apenas SGD $1 (U$0,80) uma iguaria daqui: Hambúrguer de sorvete!

O negócio é bem simples – basicamente um pão de forma e uma fatia de sorvete cortada na hora -, mas é o lanche perfeito para aliviar o calor da tarde a um preço camarada. Aliás, como em breve iríamos perceber, apesar de Singapura ser considerada como um dos lugares mais caros do mundo para se viver, pelo menos a alimentação tende a ser bem barata – mais do que o Brasil, até.

Seguimos nossa caminhada até chegar ao Rio Singapura, que apesar de não ser o rio mais limpo do mundo, tem uns arredores muito bem cuidados, com diversos restaurantes, monumentos e atividades que atraem boa parte da população para passar por lá um fim de tarde agradável.

Se pararmos para pensar, Singapura só veio a ser planejada e construída conforme conhecemos de uns 30 anos pra cá. Antes disso, era apenas uma ilha cheia de mato que não interessava a Malásia, antiga proprietária das terras.

De pântano sujo a um dos países mais desenvolvidos e urbanizados do mundo, levaram pouco mais de 30 anos. O que fizemos nos últimos 500?

Explorar um pouco de sua história através de pontes antigas e esculturas que transformam a cidade em um museu ao ar livre é encantador, nos remetendo aos tempos onde sua principal fonte de renda era a pesca e seus maiores prédios eram casas de palafitas.

Perto dali, encerramos nosso primeiro dia em um encontro com o Merlion, cabeça de leão em corpo de peixe, símbolo nacional que sintetiza a prosperidade do país:

Tudo é muito próximo desse lado da cidade, e é possível ver a roda gigante e os prédios Marina Bay Sands em conjunto com a escultura-chafariz.

Singapura nos passou uma excelente primeira impressão em nosso início de jornada. Seriam apenas 4 dias por lá, mas o suficiente para conhecer suas particularidades e compreender um pouco mais desse Estado-nação.

Com universidades na lista das melhores do mundo, transporte público super eficiente e alto Índice de Desenvolvimento Humano, conheceríamos nos próximos dias os lados menos modernos e mais tradicionais (e porque não dizer, divertidos?) de Singapura.

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2 respostas em “Singapura – (Des)complicada e Perfeitinha

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