Chinatown, Little India e Arab Street – O Lado B de Singapura

37º Dia – 04 de Março de 2014, Singapura.

Tão logo chegamos à Singapura, fui questionado por Vanessa, nossa anfitriã, sobre qual era a minha imagem sobre o país. Sem pensar duas vezes, respondi com o famoso trocadilho “fine city“, que tanto pode significar “cidade legal” como “cidade das multas”.

Pra quê?

Em Singapura existe multa pra tudo, e as placas estão espalhadas em todos os lugares. Também é proibido atravessar fora da faixa, cuspir no chão e até mascar chicletes (são ilegais e tem o mesmo status que a maconha!)

Ofendida, como boa cidadã de Singapura, Vanessa não me deixou quieto até que tivesse explicado boa parte da história de seu país e me obrigasse a ler junto com ela alguns textos! Desse modo, foi fácil começar a entender melhor a história desse Estado-nação, construído do nada para se tornar em poucos anos um país de primeiro mundo.

Singapura vive em um constante estado de sobrevivência. Tudo é importado, desde a água (que vem da Malásia) à areia das praias (que veio da França), só pra citar alguns exemplos. Nada é impossível nesse país, que erroneamente é visto como artificial quando na verdade é “só” planejado demais. Cultiva-se árvores e prédios por lá. Se falta espaço, então estende-se o território por meio de aterro. Nada pode deter o desenvolvimento.

A Educação é uma prioridade, desde cedo a competição e a exigência nas escolas fazem-se presentes: afinal são as crianças de hoje que cuidarão da Singapura de amanhã. A propaganda do serviço militar obrigatório é ostensiva, como se o país estivesse às vias de ser invadido por alguma potência estrangeira. O sistema de transporte público se expande para áreas que nem sequer são habitadas, mas que quando forem, poderão ao menos contar com uma linha de metrô.

Tudo isso parece ser feito do dia pra noite, por uma necessidade urgente de se construir um país cada vez melhor. Mas como manter essa energia, esse fôlego econômico? A resposta aparece fácil quando pensamos em… imigrantes!

Singapura é um caldeirão cultural onde gente do mundo todo está presente. São malaios, chineses, indianos, árabes e ocidentais em geral que dia a dia trabalham duro e mantêm a chama acesa. Com cada povo tendo seus hábitos e costumes próprios, para por ordem no galinheiro, Singapura teve que criar regras duras de convivência. Somente multando quem pisasse fora da linha foi possível organizar o país e colocá-lo para funcionar.

O silêncio do metrô de Singapura chega a ser assustador. Mesmo em horário de pico, só se ouve os passos da multidão descendo as escadas. Para embarcar, as setas vermelhas indicam a entrada – mas antes é necessário aguardar os passageiros que saem do vagão pela seta verde. TODO MUNDO RESPEITA.

Para manter essa sociedade tão diferente em harmonia, Singapura preocupa-se em deixar tudo bem compreensível: todas as informações públicas, placas e sinais estão escritos nos quatro idiomas oficiais: chinês, tâmil, malaio e inglês. Não tem desculpa.

Vamos passeando pelas ruas de Chinatown e conhecendo um pouco mais da comunidade chinesa de Singapura. Até os camelôs aqui são organizados, os produtos vistoriados e a limpeza exemplar. Não lembra nem um pouco a Chinatown de nenhum país, talvez nem mesmo a China.

Além de souvenires e diversos produtos eletrônicos em conta, também é possível conhecer a praça de alimentação e provar não só receitas chinesas, mas também alguns pratos típicos de Singapura.

Sopinha com arroz e carne de pato. Cada barraca recebe uma nota do governo, sendo “A” ou “B” a qualificação de acordo com a limpeza do ambiente.

Com uma história tão recente, ainda sem ídolos próprios e escassos símbolos pátrios, é na comida que os singapurianos buscam sua identidade nacional. E as escolhas não podem deixar de ser as mais multiculturais possíveis. O encontro das gastronomias da Índia, China e Malásia criam maravilhas como o “caranguejo apimentado” e outras coisas que resolvemos passar longe. Ficamos apenas com o Nasi lemak mesmo, de origem malaia.

Arroz verde com frango frito, ovo, amendoim e pimenta. Por apenas $2 SGD (U$1,80), é uma excelente escolha!

Também não podemos esquecer da infame Durian, fruta mais conhecida pelo seu fedor do que pelo gosto…

Os food markets estão espalhados por todo o país, em frente aos shoppings e próximos à ruas principais. Vale a pena visitá-los e conhecer a diversidade de pratos à disposição.

Encontramos até um delicioso copão de caldo de cana por U$0,60! Mais barato que muita feira do Brasil…

…e pra ficar perfeito, um pastel! Ok, mais ou menos um pastel…

Barata e acessível, ao contrário de Hong Kong por aqui a comida local compete de igual com o fast food.

Combo do Burguer King por $3.95 SGD (U$3,50).

Vamos deixando a bela Chinatown, com seus templos e arquitetura típica…

… para conhecer as cores e cheiros da Little India:

Se Chinatown consegue ser uma continuação perfeita de Singapura, haja vista sua limpeza e organização, o oposto acontece nesse reduto indiano.

Esse bairro realmente não parece Singapura. Tudo é meio esquisito, sujo e zoneado, como realmente uma Pequena Índia deve ser. Entramos em algumas lojinhas e vamos nos perdendo: começam como mercados, viram farmácias e joalherias no meio, para terminar como templos e loja de ração (!). É tudo confuso, mesmo.

Seguindo a sugestão de nossa anfitriã, subimos no terraço de um Shopping nas redondezas e tivemos uma visão panorâmica do bairro. O que é uma vista absolutamente normal para nós é algo que traz as mais fortes emoções para Vanessa: Acostumada a ver desde a infância apenas prédios, condomínios e casas luxuosas, a imagem de casebres com telhado colonial é algo que remete a um passado nem tão distante, quando Singapura era pobre e subdesenvolvida. “Um dia meu país foi todo assim, e um dia esses telhados nunca mais existirão.”

Ela está certa. A julgar pela rápida expansão dos edifícios ao redor, Little India está com os seus dias contados – e, sinceramente, não sei se isso é tão ruim assim.

Ao contrário de Chinatown, o bairro indiano está em uma rara área da cidade onde o metrô ainda não chegou. Logo ali ao lado, um outro bairro típico (ou seria rua?). É a Arab Street.

Um quarteirão inteiro dedicado à cultura árabe, mas bem moderninho. Uma mesquita toma conta da paisagem, dividindo espaço com alguns restaurantes turcos, sírio-libaneses e muçulmanos-indianos, além de alguns bares. É nesses últimos lugares, aliás, onde acontece de forma marginal e quase às escondidas uma interessante febre que agita as noites dos jovens singapurianos: shows de stand-up comedy.

Mas não são simples shows de comédia… Aqui, a graça é fazer piada com o estilo único de vida de Singapura! A maioria dos comediantes é composta por estrangeiros, que humorizam os costumes e as leis mais estranhas desse país tão peculiar. Não é o tipo de evento bem visto pelo governo, que constantemente é chamado de ditadura benevolente.

A figura de Lee Kwan Yew, ex-primeiro ministro do país e responsável pela separação da Malásia, deve ser realmente motivo de piadas, já que sua fama por aqui é a de um José Sarney. Mesmo fora do cargo, ele exerce forte influência no governo, recebendo títulos honorários como “Ministro Sênior” e “Ministro Mentor”, o que traduz seu desejo de não largar o osso tão cedo.

Os boatos de envolvimento dele com corrupção ativa na criação de cassinos e famosas construções são lendárias. Quem diria, em um país que já foi chamado de Disneylândia com pena de morte, o Mickey parece ser mais malvado que os Irmãos Metralha.

Corrupto ou não, é necessário dar créditos ao que foi possível se fazer nesse país: com muitas ideias na cabeça e a força dos imigrantes, criou-se um mundo cheio de possibilidades em uma ilha tropical que estava fadada a ser só mais uma selva cheia de macacos.

Apesar das notáveis distinções de cada povo, todos parecem ser unidos pelo jeito Singapura de ser, mesmo que às vezes os aparatos da organização pareçam orwellianos demais. Singapura tende a assustar europeus e americanos, mas para quem vem de países subdesenvolvidos – especialmente aqueles em que a banalização da violência e a falta de educação já tomaram conta -, esse país é um porto seguro admirável.

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