É Langkawi, mas pode chamar de Guarujá

44 ao 46º Dia – Langkawi, 12 a 14 de Março de 2014.

Viajar de trem é legal, mas cansa. Especialmente se as cadeiras da segunda classe não reclinam… aí o jeito é se virar como pode e tentar ter uma noite agradável de sono.

Apesar dos pesares, a viagem corre tranquila, como de praxe. Não bastasse ser muito fácil e barato viajar de trem pela Malásia, tudo é muito seguro e os horários são respeitados. Chegamos pela manhã em na estação de Arau, onde seguiríamos para o porto de Kuala Perlis pegar o ferry até a ilha de Langkawi.

Ainda na estação, um mochileiro russo veio falar com a gente. Era Sergei (que criatividade esses russos têm para nomes, hein?), que com um inglês sofrível tentava nos convencer a rachar um táxi com ele. É nessas horas que fico feliz por ter sido fã de t.A.T.u na adolescência. Com alguma dificuldade conseguimos nos comunicar e alguns minutos depois estávamos no táxi. Táxi compartilhado, preço mais barato pra todo mundo, uma maravilha, certo?

Só que o russo era muuuuuito mala. Além de marcar umas bobeiras grotescas (ficar usando o tablet e mexer com grandes maços de dinheiro ao lado do motorista, por exemplo, coisas impensáveis pra nós brasileiros), o cidadão era meio carente, e logo queria saber para quais praias visitaríamos, onde iríamos ficar, etc, etc. Tão logo descobriu que iríamos para a mesma praia que ele, pediu para acompanhar a gente nos próximos dias. E quando eu caí na besteira de dizer que ficaríamos na casa de um amigo do Couchsurfing… pronto, o camaradóvski implorou para dividir o quarto também!

Carol no ferry de Kuala Perlis à Langkawi. Reparem a felicidade da nossa amiga muçulmana…

Assim que entrarmos no ferry, fomos agraciados com o fato de saber que as cadeiras eram numeradas. Nos livramos do russo por um tempo. A viagem não é longa, e em pouco mais de uma hora chegaríamos à ilha. Durante o trajeto, vamos percebendo os tipos que vão nos acompanhando.

A maioria dos passageiros é de origem iraniana. As características físicas dos persas, além do idioma, são muito perceptíveis. Fora que todos seguem um estilo bem parecido: os homens têm o mesmo corte de cabelo – quando têm cabelo -, e usam barba. As mulheres são tímidas e usam véus. Viajam em família, nunca em casal, com irmão, tia, cunhado, avó… Além da renca de filhos.

Se a Malásia fosse o Brasil, então os iranianos seriam os argentinos…

É interessante notar o porquê dessa galera estar viajando por aqui. Acredite se quiser, mas a Malásia é um dos 10 países mais visitados do mundo, em parte graças ao aeroporto de Kuala Lumpur ser um dos maiores hubs da Ásia, com conexões para praticamente todo os cantos do globo. Os iranianos dão uma forcinha a mais nesses números porque basicamente é o único lugar que podem viajar.

“Você já parou pra pensar o quão inútil é um passaporte iraniano?”, nos explicou Wendy, nossa anfitriã em KL. É verdade: você não pode ir aos EUA ou a Europa porque é visto como potencial terrorista, os vistos para China ou Japão são dificílimos, e não pode nem sequer pensar em ir à Israel porque lá você seria mais mal-visto que a reencarnação de Hitler. Ir ao Brasil – único lugar do mundo onde Ahmadinejad é admirado – até seria uma opção, se esse não fosse um destino tão longe e caro.

E o que sobra? A Malásia, é claro. Especialmente as praias, o que basicamente faz a fama da ilha de Langkawi.

Ainda em KL, nossa anfitriã também nos explicou que o passaporte malaio – juntamente com o brasileiro – é um dos mais falsificados do mundo. Por U$ 20.000 no mercado negro, qualquer um pode ser malaio. Descobri que até eu pareço com o povo do norte do país.

Foi com certa precipitação que a mídia saiu apontando um provável atentado terrorista no caso do sumiço do voo MH370, usando como evidência o fato de um passageiro iraniano estar usando um passaporte falso. Fato é que esse coitado apenas devia estar tentando imigrar. Como descobríamos desde já, o povo do Irã é bem pacífico e até simpático.

Moleque iraniano (parecidíssimo com o do filme “O Iluminado”, veja só) tocando o TERROR no ferry. Deixar os filhos andando soltos por aí foi o máximo de comportamento incomum que percebemos nos iranianos até agora.

Enfim chegamos à Langkawi e o russo logo veio pra perto da gente – ô cara grudento! -, mas por uma providência divina ele ficou apertado e pediu para que o aguardássemos enquanto ele ia ao banheiro. “Claaaaaaro”, e na primeira oportunidade, nos misturamos à multidão que saía do ferry e nunca mais nos vimos.

Enfim, Langkawi!

Primeira surpresa chata: a ilha não é grande, é enorme! Tivemos que pegar um táxi – uma das coisas que mais odiamos fazer nessa vida – e fazer uma viagem de meia-hora até chegar à praia de Cenang, a principal da ilha, onde nosso anfitrião do Couchsurfing nos receberia.

Eu estava ansioso para conhecer o Jammie, já que ele havia dado a volta ao mundo nos anos 80 (!) de bicicleta (!!) e oferecia gratuitamente um quarto em frente à praia simplesmente para “pagar com gratidão toda a generosidade que recebeu em sua viagem na juventude” (!!!). Inspirador, não?

Mas aí mais uma sequência de problemas se sucedeu… Não conseguimos achar o endereço. Pegamos outro táxi, e nem o taxista sabia como chegar. Demos voltas e voltas, perdemos dinheiro, e nada. Nessa hora eu estava tão estressado que minha vontade era pegar a Carol pelo braço e entramos no primeiro ferry em direção à Tailândia.

Parabéns, Malásia: você é um teste para qualquer relacionamento!

Infelizmente tivemos que desistir de buscar pela casa de nosso ex-futuro-anfitrião e fomos procurar algum lugar para passar a noite, mesmo. Por sorte a ilha de Langkawi não é um lugar caro – pelo contrário, é um destino duty free, onde muitos turistas vêm interessados nos preços baratos da cerveja e dos produtos importados.

Haja vista nossa incrível capacidade de encontrar muquifos, o escolhido dessa vez foi o decrépito Amani Guesthouse. É uma pena não termos tirado fotos da fachada do prédio, que mais parecia uma daquelas invasões em edifícios não acabados. O recepcionista era um tio barrigudo sem camisa, que dormia no sofá na hora que chegamos. O lugar todo parece funcionar na base da “compensação”. O banheiro não tem pia, o vaso não tem descarga e o chuveiro é ruim, mas oferecem toalhas macias e confortáveis de graça. Não tem TV, mas tem frigobar. É abafado, mas o ventilador funciona que é uma beleza. A aparência do quarto é velha e decadente, mas a cama é uma delícia. E por RM 40, que logo negociei para RM 35 (U$11), nem tínhamos do que reclamar.

A localização era perfeita. Bastava atravessar a rua e lé estávamos nós, enfim, em Cenang Beach, a praia mais famosa da ilha de Langkawi.

E como era de se imaginar – ei, isso é Malásia, lembram? – a praia não era nada demais. Desculpa, mas depois de Bali, acho que ficamos meio chatos com praia. Langkawi não foi capaz de atender as expectativas, e pra gente foi como se tivéssemos ido para o Guarujá…

Pelo menos o pôr do sol era bonito.

Depois do dia estressante que tivemos, resolvemos desencanar e tentar aproveitar um pouco. Ficamos então curtindo as últimas horas do sol, enquanto as famílias iranianas se divertiam com a sensação de liberdade que o mar causa na gente. É, somos todos iguais…

No outro dia, mais praia! O aeroporto não era muito distante e toda hora um avião passava perto levantando a areia. Em tempos de voos sumidos na Malásia, ficávamos só imaginando o sentimento de cada um dos passageiros a cada pouso e decolagem.

E vamos ficando mais calmos aos poucos, esquecendo os estresses dos dias anteriores e já planejando nossa ida ao próximo destino. De Langkawi existe um ferry para Satun, nossa primeira parada na Tailândia.

O recepcionista descamisado nos informa que vai ter uma feirinha noturna na ilha. Uma excelente oportunidade de fecharmos a Malásia com chave de ouro.

A feirinha realmente foi ótima – um dos destaques da Malásia nessa viagem -, com comidas gostosas e bem baratinhas. Nem sempre higiênicas, é claro, porque aí seria pedir demais. E como gostamos de entrar a fundo nos costumes locais, até arriscamos deixar os talheres de lado e comer com a mão mesmo.

Além de comida, há até umas lojinhas de roupa e enfim coço o bolso e compro uma camisa de U$3, que fazia falta, já que só viajo com 3 dessas peças de roupa e havia perdido uma em Bali.

Adeus Langkawi, adeus Malásia. Já deu o que tinha que dar. Era hora de entrar no ferry e curtir nossa primeira travessia internacional pelo mar… Em algumas horas daríamos as boas-vindas a um dos destinos mais aguardados por nós, a incrível Tailândia!

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2 respostas em “É Langkawi, mas pode chamar de Guarujá

  1. Pingback: Entrando no Reino Encanto de Sião | Os Incomodados que se Mudem!

  2. Um conselho muitos lugares no mundo é proibido colocar os pés em cima da poltrona seja trem ou ferry-boat.Outra coisa nem sempre os taxistas necessariamente falam inglês.Geralmente se deve ter o telefone do hotel ou amigo que você vai se hospedar e ligar pra ele informando que o taxista não entendi você, então você deve passar o telefone para o taxista aí está pessoa irá ensinar ele a chegar no local ou usar o Google map do celular com nós já aconteceu isso muitas vezes é não só fora do Brasil mas no Brasil tb os estrangeiros sofrem com os nossos taxista que não falam inglês. Eu não cheguei a ir do lado nordeste das famosas praias nós fomos a uma ilha chamada pangkor amei a ilha.Agora em relação a praia te digo uma coisa quem já foi em uma praia muito bela será difícil gostar de qualquer outra praia.Adorei o Blog beijos

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