Indonésia – Quanto Gastamos?

A Indonésia é um país incrivelmente barato. Tanto que até nos surpreendemos.

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Segue abaixo a planilha com os nossos gastos finais, já convertidos em dólar. No período da nossa viagem, o câmbio estamos em U$1 = Rp. 12.000.

Com base em relatos de outros viajantes e muita pesquisa sobre preços de passeios e o custo de vida em geral, definimos para os nossos 24 dias no país um orçamento diário de U$42.

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Para nossa surpresa, ficamos bem abaixo do teto e gastamos uma média de U$30,87 por dia, isto é, uma economia diária de U$11,14. Ao todo, sobraram U$267,12. Que beleza!

Nem precisamos ficar economizando muito pra chegar a esses valores. O custo de vida do país é que realmente é muito baixo. Confesso que até exageramos bastante na compra de comidas ocidentais e supérfluos. Felizmente não pesou no orçamento.

Também procuramos sempre ficar em lugares bem-localizados e confortáveis, mas nunca passamos de U$15 o valor da diária. Como se vê na tabela, nossos gastos de hospedagem e alimentação são basicamente iguais.

Se nossos padrões fossem um pouco mais baixos, era possível economizar muito mais nessas áreas. Felizmente não foi preciso. Era tudo tão acessível que em alguns momentos até metemos o pé na jaca, considerando nossa estadia por lá como praticamente uma segunda lua-de-mel.

Alugamos moto por alguns dias – como é possível ver na coluna “Transp.”, o que facilitou muito nossa locomoção. Todos os outros gastos na mesma coluna referem-se aos táxis e eventuais transfers turísticos pela empresa Perama. Nossa maior pão-durice mesmo foi economizar no trajeto de Padang Bai para Lombok, onde utilizamos o serviço de ferry público ao invés dos barcos turísticos. Apesar de termos perdido o dia viajando, valeu a pena: o custo foi 4 vezes menor.

Alguns pequenos gastos na coluna “Misc.” referem-se à quase sempre cobrança de estacionamento de moto nas praias, abastecimento de combustível e compras de supermercado que não fossem alimentos.

A maioria das nossas atividades foram contemplativas, não havia o que se pagar. Quer dizer, até tinha, mas na maioria dos casos entramos nos lugares fazendo cara de paisagem e ninguém nos cobrou nada 😛 Só há mesmo uma cobrança mais firme no Pura Luhur Temple, onde é necessário desembolsar Rp 20.000 por pessoa.

Um gasto que não tem como fugir é o do visto. Cobram U$25 por pessoa para o visto de 30 dias, comprado assim que se chega no aeroporto, e depois ainda há uma taxinha de saída de Rp. 150.000  (+-U$12,50).

No final das contas, além de ser um destino incrível, a Indonésia também é um dos lugares mais baratos para se viver e viajar. Isso que é “custo-benefício!”

Indonésia é Amor

Queríamos começar esse texto de maneira menos piegas, mas é impossível. Enquanto o escrevemos, já passamos por outros países, como Hong Kong, Singapura, Malásia e Tailândia… Por todos esses, nos apaixonamos. Mas com a Indonésia é diferente… com a Indonésia é amor.

Uma amor à segunda vista, diga-se de passagem. Quando chegamos em Bali, nossas primeiras impressões não foram tão boas. A praia de Kuta, próxima ao aeroporto, tem um estilo muito voltado aos turistas ocidentais, repleta de baladas, restaurantes caros e um trânsito louco. Ainda assim, foi possível ver as primeiras diferenças culturais e características únicas do povo indonésio a partir dali.

Os locais são muito religiosos – extremamente -, e as oferendas aos deuses hindus são encontradas em cada esquina, em cada frente de casa ou loja. Esbarrar, pisar e até mesmo destruí-las sem querer é bem comum. Mas por lá ninguém fica bravo com isso. Em Ubud, interior de Bali, o clima é devagar quase parando. Uma paisagem envolta por plantações de arroz, em campos gigantescos que parecem não ter fim.

Não há transporte público em Bali. “Até tinha“, contou-nos um taxista certa vez, “mas aí o povo começou a comprar moto, o governo facilitava a compra e então ninguém mais quis andar de ônibus“. Obviamente esse não é o melhor dos mundos, e congestionamento diários são inevitáveis em algumas rodovias mais movimentadas. O que acaba levando à outra conclusão: Bali precisa ser curtida com calma. Fique bastante dias, alugue uma moto (ou um motorista!) e vá aproveitando cada atração com um tempo bem espaçado. Do contrário, é stress na certa.

Quase todo mundo fala inglês, ensinado desde cedo nas escolas. E quem não sabe se vira, se esforça, pois até podem parecer muito tranquilos e, por isso, sem muita vontade de trabalhar, mas é só impressão. Na primeira oportunidade de negócios, lá estarão os indonésios, pontuais e profissionais, oferecendo um preço justo pelo serviço/produto escolhido.

Pode parecer uma generalização simplória, mas motos, templos e macacos são uma constante: estão por toda a parte, sempre ao lado de uma densa vegetação e praias incríveis de fazer inveja à qualquer país tropical.

Sim, as praias da Indonésia são incríveis, com barreiras de corais que criam uma divisão natural entre o “mar calmo para famílias” e as “ondas perfeitas para surfistas”, tudo isso na mesma praia, a alguns metros a nado de acordo o tom azulado das águas. Suas ondas são famosas mundialmente, atraindo adeptos do surf de todo o mundo – inclusive do Brasil.

Nos surpreendemos com a quantidade de brasileiros em Bali, não só a turismo, mas também morando. Em alguns hotéis, só ouvíamos português pelos corredores. Até os funcionários, ao perceberem que éramos do Brasil, faziam alguns gracejos em nosso idioma. Carol nunca foi tanto chamada de “gatinha” quanto em Bali.

É tanto brasileiro por lá que chegamos ao ponto de, ao entrar no elevador do aeroporto, percebermos que todos os 8 ocupantes naquele momento eram do Brasil. “Quais são as chances disso acontecer?”, tive que perguntar, para gargalhada geral. Mas a verdade é que as probabilidades são enormes.

Não é difícil entender o carinho de nossos conterrâneos por essa ilha: Bali têm tudo que o Brasil tem de bom – natureza exuberante, praias lindas, clima agradável e um povo simpático -, e nada do que temos de ruim, como a violência, a vida apressada das grandes cidades e o custo de vida absurdo.

É até uma comparação interessante. Sob determinados aspectos, Bali lembra muito os subúrbios e cidades litorâneas do Brasil da década de 80/90, uma época nostálgica onde ainda se tinha alguma tranquilidade ao sair na rua e era possível ir com R$5 ao supermercado e voltar com a sacola cheia. Na Indonésia isso ainda é possível.

A moeda local – rúpias indonésias – é bem desvalorizada em relação ao dólar, o que faz tudo ser sempre muito barato, até mesmo para quem ganha em real. Dependendo da situação, a sensação é como estar no Parque da Turma da Mônica comprando tudo com dinheirinho de mentira. Acabamos realmente voltando à infância e nos entupindo de doces e salgadinhos, como uma criança que recebe alguns trocados de mesada dos pais.

Nunca pagamos mais do que R$30 por uma acomodação confortável, tampouco mais do que R$3 por um bom prato de comida. E por falar em comida…

Nada melhor do começar o dia com um Teh quentinho acompanhado de Banana Roti já inclusos no preço da diária!

No almoço, “sustança”! Lele Goreng (“Peixe frito”) para a Carol e Ayam Goreng (“Frango frito”) pra mim. Já deu pra perceber o que “goreng” significa, né? Pratos acompanhados de um delicioso Teh botol e o inconfundível potinho de basal (“pimenta”).

Então vamos de Kelapas Mudas (“Água de coco”) com Nasi Goreng. Dica: Nasi é “arroz”. Isso mesmo, arroz frito. Sempre acompanhado de um telur (“ovo”) e vegetais.

Suquinho de Dragon fruit  e Pad Thai pra Carol, enquanto eu vou experimentando novas variações de nasi goreng, dessa vez com frutos-do-mar. Os sucos e vitaminas da Indonésia são incríveis. Tomei muitos e muitos copões de Jus Alpokati (“Vitamina de abacate”) por menos de R$1, com direito a caldinha de chocolate!

Carbonara e um delicioso Nasi goreng ayam. Esse tá fácil, hein.

Pra variar, um fried noodles, nosso famoso miojo, só que frito. É possível encontrar variações desde as mais elaboradas, com frutos-do-mar e vegetais, até as mais simples, geralmente encontradas nas barraquinhas de rua onde o pessoal vende miojo com ki-suco, mesmo!

E quando cansávamos da comida indonésia, sempre havia a opção de uma deliciosa pizza por R$6 – com buffet de saladas, frutas e sopa inclusos!

Tio da barraca fazendo sacolés de PIMENTA. Às vezes precisávamos variar…

Se aventurar pela culinária da Indonésia se torna mais fácil com o conhecimento do idioma. Acredite, o bahasa indonésio não é um idioma tão difícil de ser aprendido, com pouquíssimas regras gramaticais e de fácil pronúncia. Em algumas semanas já estávamos aptos a pedir os pratos nos restaurantes, negociar e até ter pequenas conversas casuais com os locais no idioma deles.

Agora que você já conhece alguns nomes de pratos típicos indonésios, divirta-se calculando os preços. Cada Rp. 5.000 equivalem a R$1!

Agora que você já conhece alguns nomes de pratos típicos indonésios, divirta-se calculando os preços. Cada Rp. 5.000 equivalem a R$1!

Apesar do turismo, Bali ainda é muito rural, bem simples e humilde. E isso é ótimo! Os costumes e tradições mais milenares ainda se mantêm fortes por aqui. É de se admirar a educação e honestidade do povo – mesmo com raríssimas exceções -, a inocência das crianças e até mesmo da população em geral.

De maioria hindu e muçulmana, a cultura da Indonésia tende a ser mais conservadora. Isso se reflete até nos programas de TV, onde novelinhas de baixo orçamento bizarras ao estilo de “Rebelde” e “Malhação” são bem populares. No roteiro, as mocinhas saem da escola e viram sereias, navegam pelos mares fugindo dos perigos mais bobos, e são salvas pelo mocinho que, vejam só que atrevimento, resolvem abraçá-las no final!

Sem beijos, sem amassos, até a propaganda de camisinha é inocente, e vista sem muita atenção, mais parece um comercial de margarina – com direito à família feliz e tudo. Tão diferente do Brasil, onde temos Anitta seminua na cama declamando os versos “Com Olla na mão / Viva a pegação”…

Nossos 24 dias na Indonésia foram inesquecíveis. Jamais esqueceremos seu clima caótico e ao mesmo tempo tão zen. Os templos imponentes, as danças típicas, os macaquinhos que praticamente tornaram-se nossos animais de estimação. As praias quentinhas de azul cristalino e areia branquíssima, seja da ilha de Bali ou Gili. Cada refeição, cada passeio, cada sorriso descompromissado do povo, cada pequeno momento que passamos na Indonésia – especialmente os mais lindos pôr do sol que já vimos na vida – ficarão eternamente gravados em nossos corações.

A Indonésia é Amor.

Gili Islands – O Paraíso fica na Indonésia

24º ao 32º Dia – Gili Islands, 20 a 28 de Fevereiro de 2014, Indonésia.

Saímos de Bali e enfrentamos uma dura jornada pelo ferry público noturno que nos levaria até a ilha de Lombok. São 5 horas navegando pelo mar, dormindo no chão mesmo, mas é o jeito como os locais viajam e resolvemos encarar. A outra opção seria gastar 4 vezes mais por um transfer em um barco mais rápido e turístico, mas isso estava totalmente fora de cogitação.

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Nossa embarcação vem lotada, não só de gente, mas também de motos, carros e até caminhões de carga. Em um país-arquipélago com mais de 17.000 ilhas, a logística de transporte é bem complicada. Não é à toa que o slogan da companhia de ferry é “We Bridge The Nation” (algo como “Nós Somos a Ponte da Nação”, em tradução livre).

Enfim, chegamos pela manhã. Acabou a paz e a tranquilidade balinesa, pelo menos por enquanto. Em Lombok, ilha majoritariamente muçulmana, vamos percebendo um estilo de vida completamente novo. No lugar de templos, mesquitas. Em vez de joias e brincos, véus. As características e os costumes das pessoas são diferentes. Parece até outro país.

Na saída do porto, na cidade de Lembar, logo somos abordados por dezenas de taxistas e carregadores de malas, com uma abordagem bem agressiva. Saudades dos mansos hindus de Bali. Negociando, conseguimos fechar com Nasir, um muçulmano engraçado que ouvia Bob Marley e Michael Jackson no volume máximo nas primeiras horas da manhã. Em seu gigante carro Toyota, o pai de 4 filhos ia nos entretendo com sua música e bom papo pelo longo caminho. Íamos em direção a cidade de Bangsal, onde pegaríamos nosso último meio de transporte do dia, um barco para a ilha de Gili Trawangan. Sem muita noção de distância, oferecemos 150.000 rúpias (R$30) pela corrida, um valor justo de acordo com os guias que lemos. Só não sabíamos que essa seria uma viagem de mais de 2 horas de duração, em uma estrada cheia de altos e baixos e repleta de macacos pelo caminho!

A vida é meio injusta. O valor era ridiculamente baixo pelo serviço prestado, mas, por outro lado, era um preço bem maior do que o cobrado aos locais pelo mesmo trajeto. Não quis bancar o turista deslumbrado e dar-lhe uma gorjeta. Me arrependo. Mas pelo menos ele não estava saindo no prejuízo.


Nosso barco demorou a sair, já que é necessário ter uma lotação mínima. É assim que funciona o transporte público da Indonésia – quando existe. Mas paciência, seríamos em breve compensados por todo o esforço.

A curta travessia já nos mostrava que estávamos indo para um destino encantador. Mágico. Dar de cara com a combinação de mar mais translúcido com a areia mais branquinha que já vimos foi de emocionar. Era Gili Trawangan, a primeira das três ilhas a se apresentar.

Nos hospedamos no simpático Gili Life Homestay, hospedagem gerida por uma família muçulmana tradicional, mas nem tanto. Iríamos ficar por lá 8 dias e tentei negociar diretamente com o proprietário – irredutível. Venci pelo cansaço e consegui desconto, enfim tínhamos um quarto confortável com café-da-manhã por U$11. Mas com uma condição: “Não conta pra ninguém que você está pagando mais barato”, disse o homem, com direito a piscadinha e sinal de shhhh com o dedo. Que Alá nos perdoe…

Mochilas guardada, banhos tomados. Pra que esperar? Era hora de conhecer as tão sonhadas praias!

Ok, não sem antes de um delicioso nasi goreng com suco de Dragon Fruit…

E depois sim, praia!

Que lugar incrível! Cada parte da ilha parecia ser um pedacinho do paraíso. Paisagens perfeitas, de tirar o fôlego.

Ainda em nosso primeiro dia na ilha, fomos presenteados com um dos mais lindos por-do-sol que já vimos. O céu da Indonésia é incrível, com uma cor de fogo indescritível. É de cair o queixo.

Tudo é muito harmônico em Gili Trawangan, até as cadeiras dos resorts combinam com a paisagem, sem necessariamente criar um ambiente separado para hóspedes.

Existe todo tipo de hospedagem na ilha, dos hotéis mais caros aos quartinhos mais humildes (nosso caso). No entanto, o lugar é tão lindo e tudo tão simples que não importa onde você esteja, o clima de vilarejo de pescadores prevalece. As ruas são de barro, não há carros ou motos. Apenas bicicletas e charretes puxadas por cavalos exageradamente decorados com brilhos e penduricalhos. Tudo na mais perfeita tranquilidade.

Cada dia parece ser melhor que outro. Pequena como é, é possível dar a volta inteira na ilha em menos de 2 horas. Aos poucos, vamos descobrindo lugares mais preservados, e por isso mesmo, mais bonitos. Sem muita coisa pra fazer a não ser curtir a ilha, vamos nos deliciando com o sol e o mar…

Pouco a pouco vamos nos habituando ao ritmo leve da ilha. A mesquita, bem próxima à praia, emite no alto-falante o som das orações. A maioria da população é muçulmana, e muitos interrompem seus negócios para fazer suas preces. Para contrastar com tamanha devoção, algumas turistas continuam calmamente a praticar topless.

Em um belo dia – e “belo” aqui não é força de expressão -, tivemos até a sorte de presenciar a formação de uma imponente tromba d’água sobre o mar. Sem forças, logo dissipou-se – para alívio de algumas banhistas que já estavam colocando a parte de cima do biquíni para ir embora…

Apesar de ser uma ilha que vive do turismo, os preços praticados são em geral bem baixos, como é de praxe em toda a Indonésia. Restaurantes para todos os tipos de gastronomia existem aos montes, disputando clientes com promoções e descontos.

E como não poderia deixar de ser, as feirinhas noturnas de comida local sempre marcam presença – afinal, isso é Ásia! Espetinhos, noodles, arroz frito e todos os pratos mais baratos que se possa imaginar encontram-se por lá.

Gostamos bastante da comida local da Indonésia, mas o custo de vida do país é tão baixo que nem mesmo as comidas ocidentais custam caro. Buscando uma boa opção para jantar, acabamos esbarrando com a pizzaria J. Marlin, que oferecia qualquer sabor de pizza por apenas 30.000 rúpias (+-U$2,50). Como se não bastasse as pizzas serem deliciosas, ainda tínhamos direito a nos servir de sopa, saladas e até frutas no balcão, estilo buffet. Desnecessário dizer que passamos uma semana jantando pizza!

Aproveitamos alguns dias para também conhecer as ilhas vizinhas, Gili Meno e Gili Air.

Já estávamos apaixonados pela beleza de Gili Trawangan, mas Gili Meno conseguiu ser ainda mais bonita! Como é possível, não sabemos. Mas o lugar parece ser ainda mais preservado e paradisíaco.

Passamos o dia inteiro por lá, e deu até tristeza na hora de ir embora. Quem quer abandonar um lugar como esse?

Além da natureza estonteante, também há pelo local alguns restaurantes simpáticos e baratos, além de algumas poucas construções típicas inspiradoras:

No outro dia, demos um pulo em Gili Air (lê-se “A-ir”, como em Airton). Gili significa “ilha” em bahasa indonésio, e Air, “água”. Essa verdadeira ilha de água também não decepciona, apesar de não ser tão deslumbrante quanto suas irmãs.

Voltamos para Trawangan, a fim de aproveitar nosso último dia na ilha. Esse também seria um dos últimos dias da Indonésia antes de partir para Singapura. A saudade já começava a bater antes mesmo de irmos embora…

O dia amanhece ligeiramente nublado, o que pode não ser bom para aproveitar a praia, mas certamente nos leva a um momento reflexivo – algo tão comum em uma viagem como essa.

Após darmos a volta na ilha, era a vez de cruzá-la por dentro. Fomos conhecendo então os locais mais afastados e mais humildes, onde vivem os locais. Apesar da pobreza quase sempre presente, o povo indonésio transparece uma dignidade tão pura que faz com que qualquer falta de recursos aparente torne-se um mero detalhe.

Infelizmente não se pode dizer o mesmo do que encontramos no meio da ilha… uma espécie de lixão, onde vão parar todos os resíduos do turismo sem controle.

A imagem da montanha de lixo pegando fogo com animais ao redor se alimentando dos restos não é a das mais agradáveis, principalmente se formos considerar os arredores tão lindos da ilha. Esse é o tipo de lugar que quase ninguém busca conhecer, mas estamos viajando para enxergar a realidade, e ela aparece nua e crua à nossa frente.

Mas a realidade também se apresenta alguns passos mais adiante, quando finalmente chegamos à outra praia. Alguns trabalhadores levam seus cavalos para tomarem um banho de mar (!).

“É mais fácil apedrejar pôneis em Bali…”

Do outro lado, uma barraca vende os cocos mais deliciosos que já provamos, gelados e com direito a uma suculenta polpa por menos de U$1. Crianças brincam por ali felizes, dançando e se divertindo livremente. Não é difícil entender a razão da felicidade delas, afinal, apesar de tudo, elas vivem no paraíso.

O Dia que demos um Golpe em um Golpista

23º dia – Kuta/Padang Bai, 19 de Fevereiro de 2014, Indonésia.

Ser brasileiro é ruim, mas é bom. Entenda:

Estávamos precisando trocar alguns dólares, já que iríamos passar uma semana em uma ilha sem caixa automático. Por aqui existe uma casa de câmbio em cada esquina, e entre elas, vários pequenos estabelecimentos que também trocam dinheiro, geralmente à uma taxa ligeiramente melhor do que os lugares oficiais. Essa atividade não chega a ser ilegal, é apenas informal mesmo, já que não há controle e nem emissão de recibo. Como estávamos atrasados para pegar um ônibus, resolvemos ir trocar em um estabelecimento desses.

Um hindu com jeitão de indiano apareceu para nos receber, perguntando quanto precisaríamos trocar. Fez uns cálculos e mostrou-nos o valor da conversão. O Sudeste Asiático, apesar de ser um lugar pacífico, é conhecido por ser o lar de diversos golpes contra turistas, e maquiar cálculos de conversão usando calculadoras pré-programadas é um deles. Mas nós também havíamos feito nossos próprios cálculos no celular e vimos que o valor batia, ou seja, não estávamos sendo roubados.

Estávamos trocando U$100, o que corresponderia a Rp. 1.200.000 (um milhão e duzentas mil rúpias). Ele pediu desculpas por só ter notas pequenas, de 20.000 rúpias, e logo foi começando a contar. Eu, sempre atento, acompanhava a contagem dele, e depois pegava o dinheiro na mão e fazia minha própria contagem novamente. Seguiu-se o mesmo procedimento por várias vezes seguidas, até que todas as notas formassem um maço bem grande no balcão.

O valor estava certo e tudo parecia normal, mas ao terminarmos de contar ele resolveu “juntar” o dinheiro espalhado na mesa. Foi tudo MUITO RÁPIDO, ele fez um vuuupt, juntou tudo na mão e me deu. E antes que fizéssemos menção de contar de novo, malandramente ele avisou que era pra “guardar logo o dinheiro na carteira, por que a rua tá cheia de gente”, como se os índices de roubo na Indonésia fossem parecidos com os do Brasil…

Caí na ladainha dele, botei o dinheiro na moneybelt, agradeci e saí. Mas tanto eu quanto a Carol ficamos com a sensação que o movimento dele ao juntar o dinheiro foi muito rápido, muito estranho. Resolvemos contar o dinheiro novamente. E para nossa surpresa, ao invés de 1.200.000 rúpias, haviam somente 800.000 rúpias. O malandrão havia nos surrupiado 400.000 rúpias (+-U$35) num PASSE DE MÁGICA. Vapt, vupt, simples assim.

Pelo menos o cara era talentoso.

Fiquei bem chateado e resolvi passar em frente à loja dele. Não queria briga nem confusão, apenas queria chamá-lo de ladrão. Juro, era só isso que eu ia fazer. Mas assim que eu voltei e encarei o sujeito, ele SE CAGOU DE MEDO. Fez uma cara de choro, foi dando uns passos para trás. Verdade seja dita: os malandros aqui não são como os malandros brasileiros. Os daqui não são violentos, pelo contrário, são verdadeiros bebês chorões, covardes, cheios de medo à primeira menção da palavra “polícia”.

Não existe impunidade em um país com pena de morte…

Percebendo que eu tinha o controle da situação, fui me aproximando lentamente do balcão, e com a cara mais cínica que pude fazer, falei: “Belo truque, buddy. Você é mágico? Legal! Me ensina a fazer isso aí?”

Ele ficou gaguejando, tirou umas notas de 50.000 rúpias e jogou no balcão, implorando I’m sorry, I’m sorry. Peguei as notas satisfeito e fui indo embora… até notar que o cara só havia me dado 4 notas de 50.000, ou seja, ainda faltavam 200.000 rúpias! O bonitão estava querendo me fazer de otário pela segunda vez.

Aí eu não aguentei… voltei de novo, com mais cara de macho ainda (e ele se borrando, todo acuado), e comecei a falar todos os impropérios em bahasa e inglês que sei. “Você é o Mr. M? É o David Cooperfield? Devolve o meu dinheiro A-G-O-R-A, ou eu chamo a polícia, seu ladrãozinho!”

Reconstituição fiel da cena

Reconstituição fiel da cena

Ele ainda tentou argumentar, mas continuei firme: “Rapaz, você vai para o inferno dos hindus! Vishnu vai pegar no teu pé, você vai pegar um karma bem grande e vai reencarnar numa barata!!!”

O pior é que eu estava em um tom super sério, falando bem alto. Hindus têm horror a isso. Existe algo na cultura deles chamado “perder a face”, que é sinônimo de perder a honra através da vergonha pública. E nessa hora, já havia um monte de gente por perto acompanhando a discussão. Até colegas que trabalhavam com ele, reprovando completamente a sua conduta.

Ele pegou de volta a minha nota de U$100 e fez que ia devolvê-la. Fui pegar e o bonitão falou: “não, meu dinheiro primeiro”. Aí eu falei mais abobrinhas ainda: “Você tá achando que eu sou mágico que nem você? Rapaz, no meu país a gente tortura até a morte pessoas do seu tipo! Eu quero o meu dinheiro, pode devolver agora!”.

Nesse meio tempo, dei ouvidos ao diabinho com sotaque carioca do lado da minha cabeça, que disse: “Pô, esse cara tentou te roubar 400 mil rúpias, agora tu vai devolver tudo pra ele, pegar teu dinheiro e vai ficar tudo por isso mesmo? Que lição ele vai aprender disso, rapá?”

Então, enquanto ainda discutíamos, comecei a contar o dinheiro na frente dele da forma mais completamente zoneada possível, e sem que ele percebesse, escondi 100.000 rúpias (+-U$10) no meu bolso…

Sim, dei o golpe no golpista. Sim, isso é feio, muito feio.
Mas poxa, ele mereceu.

Nem terminei de fingir que contava, ele se deu por vencido e tirei de volta a nota de dólar da mão dele. Devolvi as rúpias sobre o balcão da forma mais estúpida possível e mandei um “se vira!”.

Tão logo estávamos fora da loja, saímos apressados atrás de uma casa de câmbio oficial, trocamos nosso dinheiro e fomos embora. Não sem antes nos sentirmos um pouco Bonnie e Clyde, correndo como loucos nos becos e quebradas de Bali, achando que poderíamos estar sendo seguidos.

O trambiqueiro tentou nos dar um golpe e roubar 400.000 rúpias, perdeu tudo e ainda saiu no prejuízo de 100.000!

Ao menos ele aprendeu uma grande lição: nunca roubar… brasileiros!

PS: Sabemos que isso tudo é errado, e ao contrário do que possa parecer, não nos orgulhamos nem um pouco. Tanto que logo nos desfizemos desse dinheiro, distribuindo-o entre esmolas para alguns moradores de rua – que ficaram muito felizes ao recebê-los, aliás.

Afinal, sei lá, não queremos reencarnar em uma barata 🙂

As Paisagens mais Incríveis de Bali

17º ao 22º dia – Uluwatu, 13 a 18 de Fevereiro de 2014, Indonésia.

Decidimos deixar a paz e a tranquilidade do interior de Bali para encarar as suas paisagens mais deslumbrantes. E acertamos em cheio ao escolher a península de Uluwatu, ao sul da ilha, como nossa base de exploração.

Ficamos hospedados por cinco dias no 3D Homestay, a poucos minutos de moto da praia de Padang Padang, famosa pela quantidade de surfistas – muitos deles brasileiros – que se encantam por suas ondas e o ambiente inspirador.

Dessa vez demos sorte: por U$8 a diária, tínhamos um quarto bem espaçoso à nossa disposição, com direito até a piscina!

Tratamos de alugar uma moto (U$4 por dia) e fizemos a festa! As praias eram nossas, bastava encarar a estrada cheia de altos e baixos, uma espécie de Rio-Santos mais íngreme e sem acostamento.

Primeiramente nos dedicamos a conhecer a praia mais próxima, Padang Padang. O acesso ao local é escondido – como aliás, é em quase todas as melhores praias daqui. Mas basta passar por uma escadinha esculpida entre o pouco espaço que a natureza permitiu deixar-nos passar, e lá estamos: no paraíso.

A água é morninha, característica das praias do Oceano Índico, e bem transparente. Depois do primeiro mergulho, não dá vontade de sair mais.

Apesar de não ser deserta – e ter muitas barracas e vendedores pro nosso gosto -, o lugar não deixa de ser uma excelente praia para descansar.

Com a maré baixa, é possível aproveitar a faixa de areia maior e atravessar para o seu outro lado, onde uma pedra divide a praia em duas, deixando o outro lado mais reservado.

É interessante notar que Padang Padang não só atrai turistas, mas também a população local e até alguns indonésios de outras ilhas, como Java, majoritariamente muçulmana. O resultado é a integração de diversas culturas em um só lugar!

Essa última foto tem uma história curiosa. Disfarçamos bastante para tirá-la sem que a senhora percebesse, já que não queríamos que ela se sentisse “exótica” apenas por estar de véu na praia. Alguns minutos depois, ela veio em nossa direção, e logo ficamos preocupados com o sermão que ela nos daria por termos tirado sua foto sem autorização…

Mas ao invés disso, ela veio com um sorriso no rosto e pediu tirar uma foto com a gente, já que para ela nós é que éramos os diferentes!

Na saída da praia, uma surpresa nada agradável: um grupo de salva-vidas segura firmemente um rapaz, e seus gestos são tão bruscos que logo abandonamos a ideia de que aquilo seria uma espécie de treinamento. O rapaz é amarrado e arrastado como um boi pronto para ser assado na brasa, e derrubam ele no chão com tanta violência que seu nariz começa a sangrar.

Uma aglomeração vai se formando na rua, onde o rapaz é finalmente levado e cercado por locais. Todos parecem estar bem nervosos, e seguem vociferando contra ele de uma maneira que realmente chegamos a pensar que haveria um linchamento. A rua fica cheia, e todos mundo sai dos estabelecimentos vizinhos pra acompanhar a confusão.

Sim, todo mundo pilota motos por aqui…

Conseguimos descobrir a razão da captura do rapaz: ele supostamente havia cometido um furto na praia. E para que não houvesse dúvidas, escoltaram-no pelas proximidades até que ele mostrasse onde havia escondido os objetos roubados.

Quando enfim parecia que o garoto ia começar a ser espancado ali mesmo, surpresa: os moradores continuavam a gritar com ele, provavelmente xingando, mas exceto pelos guarda-vidas, ninguém encostou um dedo nele. Alguns minutos após o carro da polícia chegou e enfim o levou.

Enquanto no Brasil o linchamento público de criminosos vem se tornado comum, o povo por aqui parece ainda confiar na polícia. O máximo de justiça que fazem com as próprias mãos é amarrar o criminoso e amaldiçoá-lo. Não é pra menos: em um país com pena de morte, a impunidade não existe. Pra que sujar as mãos de sangue? Deixem isso com os brasileiros, povo habituado a ausência da Justiça. Aqui em Bali, a população composta por pescadores e agricultores, quase sempre iletrados, já entenderam há muito tempo como funciona a lei.

Seguindo pelas praias, deixamos nossa moto estacionada e chegamos a Blue Point Beach, mais uma praia de difícil acesso, mas de um mar azul indescritível mesmo em dia nublado.

É um belo lugar para ser fotografado de cima, onde a cor do mar e as falésias se destacam na paisagem.

Mas para tomar banho, é melhor procurar outra praia e deixar essa com os surfistas mais experientes. As ondas são bem fortes e, ao contrário das outras praias de Bali protegidas pelos corais, elas quebram bem no raso, inundando o caminho de pedras e dificultando o mergulho.

Os dias passam cada vez mais preguiçosos… Bali é um lugar incrível para relaxar, e como tudo é muito barato, nos permitimos viver aqui uma segunda lua-de-mel com alguns pequenos luxos. Sem compromissos, sem relógio, sem agenda, acordávamos tarde e pegávamos a moto para ir almoçar em algum warung e depois passar o dia em uma praia.

Descobrimos uma pizzaria italiana por perto em pleno Valentine’s Day e desde então passamos a jantar por lá toda noite, dando um tempo nos temperos da culinária indonésia.

Nos dias nublados, ao invés da praia dávamos preferência à piscina do Homestay, que na verdade ainda nem estava pronta, mas mesmo assim nos autorizaram a usar.

Uma excelente oportunidade para testar a bolsa à prova d’água:

No outro dia, decidimos ir à Secret Beach (ou Pandawa), que apesar do nome já não é mais tão secreta assim – até cobram para entrar! -, mas é lindíssima e muito bem preservada.

A estrada até lá é do jeito que eu gosto, cheia de curvas e das habituais ladeiras e subidas. Vamos nos embrenhando pelos atalhos e descobrindo lugares cada vez mais lindos, mesmo antes de chegarmos à praia.

Infelizmente essa vida louca de motoqueiro tem seus percalços, e acabamos estourando um pneu no meio do caminho – pura imprudência minha, que resolvi passar em cima de algumas pedras.

Sorte nossa poder contar sempre com a simpatia do povo balinês, que mesmo com um inglês básico é capaz de nos dar todas as informações que precisamos. Encontramos uma oficina onde um tiozinho consertou o pneu por um preço camarada, e seguimos em frente.

Não sem antes abastecer, é claro. Isso aí em cima são os “postos de gasolina” daqui, com o combustível armazenado em garradas de Absolut Vodka – não me pergunte o porquê. Com U$1 é possível encher o tanque, basta abrir as garrafas e despejar o Petrol no compartimento correspondente. Não tenho ideia do quão batizado esse líquido pode ser, mas até agora funcionou muito bem nos mais variados lugares que abastecemos.

Enfim chegamos à Secret Beach, Que lugar encantador! No caminho sinuoso, é possível contemplar as mais variadas tonalidade de azul da praia, que são de fazer cair o queixo. Nas falésias das proximidades, buracos enormes foram feitos para atender a religiosidade do povo e servir de abrigo às estátuas dos deuses.

E enfim, a praia!

O que dizer desse paraíso? Se uma imagem vale por mil palavras, espero que todas essas fotos falem por si só:

Após uma overdose de beleza como essa, só nos restava ir para nosso cafofo descansar um pouco e terminar nossas “férias das férias” em Uluwatu indo na sua maior atração: o templo Pura Luhur.

A entrada é relativamente cara para os padrões de Bali (U$2), mas está incluso no preço o uso do sarong, essa espécia de saia roxa usada para cobrir as pernas como sinal de respeito ao lugar sagrado. Mas, verdade seja dita, ninguém vai pra lá só pra ver esse templo encravado no alto de um penhasco. As pessoas vão com o interesse de ver os macacos e o por-do-sol.

Sobre os macacos, é bom avisar: esses aqui são bem mais agressivos do que os da Monkey Forest, em Ubud. Os bichos chegam ser obesos, andam com dificuldade, mas tornam-se bem ágeis na primeira oportunidade de roubar algum pertence do turista. Vale tudo, óculos, bolsa, câmera, desde que possa ser usado como moeda de troco por uma banana.

Apesar de termos lido todas as recomendações e guardado bem os nossos pertences, Carol esqueceu o seu óculos pendurado na cordinha do pescoço. Bom, você já consegue imaginar o que aconteceu, não é? Um filhote de King Kong pulou bem em cima dela e tentou arrancar o óculos, que só não foi levado porque a cordinha estava bem amarrada. E também porque Carol, habituada aos trombadinhas do Rio de Janeiro, estava alerta e tão logo foi atacada pelo primata, deu um jeb de direita mortal no bicho, que saiu meio cambaleante.

Sempre tem um boliviano perdido…

O finzinho da tarde vai se aproximando e o local fica bem cheio de visitantes ávidos por uma boa foto. Não é pra menos, olha a vista desse lugar!

Nos rendemos à toda aquela beleza! Só nos restava admirar o por-do-sol que viria.

Saímos inspirados daquele lugar, pronto para encarar maiores desafios!

E eles viriam: dessa vez, a vida mansa da motoca acabaria. Partiríamos para Lombok, ilha de maioria muçulmana, em uma longa viagem pelo mar com destino final às ilhas Gili.

Mal sabíamos, mas estávamos prestes a ver as paisagens mais incríveis… da Indonésia!

Próximo destino: Lombok – Gili Islands!

Comer, Rezar e Amar em Ubud

14º ao 16º dia – Ubud, 10 a 12 de Fevereiro de 2014, Indonésia.

Kuta é uma bagunça, como imaginávamos. Tão logo nos aclimatamos a essa nova realidade que é a Indonésia, decidimos trocar as praias e os camelódromos pelo simpático interior de Bali, onde a cidade de Ubud – cenário do filme Comer, Amar, Rezar – nos reservaria experiências inesquecíveis.

Transporte público simplesmente não existe em Bali, ou você anda de táxi ou aluga uma moto. Encontramos uma opção intermediária e mais econômica: reservamos um translado com a empresa Perama Tour, a única companhia a realizar esse tipo de serviço por aqui. Comprando a passagem de ida-e-volta sai mais barato, e por 40.000 rúpias o trecho (U$3,50), em 1 hora chegamos à terra dos campos de arroz e templos infinitos.

E que templos! Estão espalhados por todos os locais, tão presentes no dia-a-dia dos moradores que é difícil entender o que de fato é um templo e o que é só um estabelecimento imitando a arquitetura.

Assim como em Kuta, as oferendas espalham-se pelas calçadas – o que inevitavelmente nos faz pisar em várias delas. O cheiro forte de incenso às vezes incomoda, e pouco a pouco vamos notando que toda a religiosidade desse povo não é uma atração turística, mas sim uma parte real da vida deles.

Apesar de estar longe do mar e até ser considerada uma cidade serrana, a temperatura de Ubud é bem quente. Some isso à toda a atmosfera mística-religiosa da cidade e o resultado é uma letargia difícil de ser superada. Foi com certo sofrimento que andamos pelos becos até encontrar nossa hospedagem, o Swan Inn Homestay.

Apesar do ambiente meio antigo, por U$14 tínhamos internet, café-da-manhã e uma boa localização. As homestays são exatamente isso: “estadias em casa”. Geralmente um morador local aproveita o espaço do seu quintal e constrói vários quartinhos – quase sempre melhores e mais equipados do que sua própria casa -, deixando um lugar reservado no gramado para os altares de seus deuses. É impossível fugir a ambientes como esses, e de tão parecidos, é fácil se confundir e entrar na homestay errada.

Mesmo tirando um cochilo, o cansaço mental não passou. Todos os sentidos são estimulados ao extremo em Ubud. Felizmente, o paladar também é um dos beneficiados.

Decidimos ir almoçar no Ibu Oka, um dos estabelecimentos mais tradicionais de Ubud. O ambiente é tipicamente balinês, e além da arquitetura padrão, há uma mesinha rebaixada e os clientes comem sentados no chão. Experimentamos o Babi guling special, um prato baseado em carne de porco assada com arroz e diversas outras coisas impossíveis de ser identificadas, mas ainda assim muito boas. Temos quase certeza de que havia um chouriço no meio. Um coco gigante acompanha nossa aventura gastronômica, e tudo sai em torno dos U$5.

É interessante notar como os preços da alimentação em Bali são bem baixos e, mesmo em ambientes mais sofisticados, a diferença de valores não é significativa. Comer nasi goreng ayam (arroz frito com frango, ovo e vegetais) e tomar um chá gelado ou água de coco custa em torno de U$2,50 para duas pessoas, mas ir a um ambiente mais turístico e provar pratos ocidentais ou caprichados em frutos-do-mar não custa mais do que “o dobro”. Nada extorsivo.

Se tratando de comer em Bali, estamos muito bem. Fizemos uma farra comendo todo dia Pringles, Magnum Yakult, marcas que custam o olho da cara no Brasil, mas que por aqui são encontradas em qualquer esquina, vendidas a preços acessíveis até para os locais.

A previsão do tempo para o próximo dia era de chuva, e nem adiantou rezar. Uma chuvinha chata nos acompanhou o dia inteiro, o que mesmo assim não nos impediu de descobrir pedalando um pouco mais das paisagens rurais de Ubud.

Uma estradinha pouco movimentada vai nos levando através de casas simples e templos sempre presentes, emoldurados pelo verde das plantações de arroz. A paisagem é de uma calmaria só, e precisávamos muito respirar um ar livre de fumaça de incenso.

No caminho, começamos a perceber que as eleições por aqui estão se aproximando. E é claro, propagandas políticas estão por todo o canto. Como sabemos isso? É que os políticos tem a mesma cara em todo o mundo…

Os nomes dos candidatos, aliás, revela uma interessante curiosidade em Bali: pelo menos entre os hinduístas, os nomes aqui são sempre os mesmos, e variam de acordo com a ordem de nascimento. Por exemplo, o primogênito sempre se chamará “Wayan”, “Gede” ou “Putu”. O segundo filho será “Made” ou “Kadek”. O terceiro será “Nyoman” e o quarto será “Ketut”. Se a mulher tiver mais filhos, volta tudo desde o começo!

bahasa indonésio, idioma falado por aqui, é bem simples de ser aprendido, sem muitas regras gramaticais e com uma pronúncia simples para quem está acostumado com o português. Inclusive algumas palavras são iguais as nossas, mas com significados completamente diferentes. Enquanto vamos aprendemos o básico da língua para podermos nos virar nos restaurantes, vamos rindo de algumas coincidências linguísticas que insistem em aparecer…

Aproveitamos o final do dia para visitarmos uma das atrações mais famosas de Ubud: a Monkey Forest.

O lugar é lindo, cheio de árvores enormes e exuberantes. Mas é claro, a principal atração são os animais que dão nome à atração. Os macaquinhos estão por toda a parte!

Bem menos fofos do que parecem, e muito mais interesseiros, os pequenos primatas correm para todo o lado, brincam, catam piolhos, e não deixam os turistas em paz. Para aqueles que lhes trazem banana ou biscoitinhos, eles logo viram amigos, subindo em cima da pessoas e posando para fotos. Já para quem aparece de mãos vazias, uma olhar de desprezo basta…

Ainda veríamos muitos deles em Bali… Aqui é o verdadeiro “Planeta dos Macacos”, e assim como no filme, os símios daqui parecem estar a um passo de dominar os humanos. Alguns chegam a realizar pequenos furtos, capturando óculos, bolsas e bonés dos turistas mais incautos e só devolvendo mediante um lanchinho.

Só havíamos reservado dois dias no Swan Inn e logo precisávamos encontrar um novo lugar para ficar. Acabamos esbarrando no Donald Homestay, onde uma senhora simpática nos ofereceu um quarto com café-da-manhã incluso por U$8. Que beleza! Fechamos na hora, mas mal sabíamos a péssima escolha que havíamos feito.

O lugar até era arrumadinho, mas algumas coisas eram medonhas. E nem me refiro às moradoras bem velhinhas que de vez em quando passeavam sem camisa no jardim…

A porta do quarto que não fechava ou as aranhas enormes que encontramos no banheiro também não foram um problema. A situação complicou-se realmente à noite, quando barulhos estranhos no teto impediram completamente a chance de termos uma boa noite de sono.

Mais tarde viemos a descobrir que tratava-se do canto de um pássaro bem comum em Bali, mas como convencer Carol disso, de madrugada, enquanto duas deusas hindus esquisitonas nos encaravam no quadro em cima da cama? E como se não pudesse ficar pior, comecei a sentir picadas estranhas… até que percebi que a cama estava infestada de bed bugs, insetos chatos que sugaram nosso sangue durante toda a noite e deixaram marcas violentas no lençol. Impossível dormir.

Na manhã seguinte fizemos nosso desjejum e saímos correndo do lugar. Chega de perrengue, já basta aquele de Hong Kong! Agora era hora de pegar a moto que havíamos alugado no final do dia anterior e seguirmos velozes e furiosos (ok, nem tanto) pelas estradas de Ubud que a chuva havia nos impedido de conhecer completamente de bicicleta.

Em tempo: eu nunca havia pilotado uma moto na minha vida. Mas nossa pequena scooter parecia bem simples de ser manejada. Assisti a um vídeo no Youtube (!) e aprendi o básico. Era hora de acelerar a motinho, que mal alcançava os 40 km/h, e sentir o gostoso sabor da liberdade!

Sendo uma ilha sem transporte público e com uma fiscalização meio frouxa, alugar uma moto por aqui é a melhor decisão que pode ser feita para explorar o lugar. O valor é a partir dos U$4 a diária, e o combustível é baratíssimo. Aquela não seria a única vez que nos permitiríamos uma vida de James Dean!

Sim o trânsito é louco. Sim, o trânsito é caótico. Mas nem de longe é violento como o de qualquer metrópole brasileira. Não vimos um acidente sequer durante nossos 24 dias em Bali. Mesmo sem uma noção correta de mão ou contramão, todo mundo se respeita e acabam se entendendo, sem brigas ou arrancadas. Até a buzina é rara por aqui, sendo usada somente para sinalizar ultrapassagens.

O engarrafamento concentra-se somente nas áreas principais de Ubud. Saindo dali, seguimos sem maiores problemas em direção à Tegalalang, onde as belas plantações de arroz mostram todo o seu charme. As paisagens são de tirar o fôlego!

Dizem que a cidadezinha hoje em dia está muito turística e já perdeu muita de sua autenticidade. Pode até ser. De toda forma, é incrível contemplar toda aquela paisagem e notar que mesmo com todo o desenvolvimento do turismo em Bali nos últimos anos, a ilha permanece mantendo sua cultura local, seja em relação à religião ou a agricultura.

Pelo caminho vamos encontrando vários Warungs, pequenos restaurantes de pratos tipicamente indonésios,  com preços ainda mais baratos do que no centro de Ubud. E lá vamos nós matar a sede com mais água de coco.

Comemos até nos empanturrarmos, rezamos para que os macacos não nos mordessem e a moto não caísse, e por fim vimos que é impossível não amar Bali.

Nossos três dias em Ubud vão chegando ao fim. Gostamos bastante do lugar, que tem um clima bem mais familiar do que o de Kuta. Ali é possível não só desfrutar de belas paisagens como também comer muito bem e ter acesso a uma excelente infraestrutura de mercados e farmácias sempre disponíveis e com o melhor atendimento possível.

Apesar disso, a atmosfera de Ubud é de uma idolatria sem igual, e confesso que ao contrário da Julia Roberts, não estávamos em busca das respostas para nossas vidas através dos gurus e seus templos. Sequer assistimos as tradicionais cerimônias religiosas que acontecem por aqui, famosas por seus cantos e danças exóticas.

Mas ficamos mesmo é com muita inveja daqueles macacos da Monkey Forest. Os bichinhos só sabiam acasalar, comer e dormir. Caramba, queríamos uma vida dessas também!

Mas com uma pequena diferença: dessa vez, queríamos curtir as melhores praias de Bali! Para isso, cairíamos na estrada novamente até a península de Uluwatu, ao sul da ilha, onde conheceríamos os lugares mais deslumbrantes dessa viagem… até agora!

Próxima parada: Padang Padang!

Bali não é para Principiantes

12º e 13º dia – Bali, 08 a 09 de Fevereiro de 2014, Indonésia.

Sair de Hong Kong para a Indonésia é mudar da água para o vinho. E mais precisamente em Bali, é como derramar a Perrier no chão e pedir ao garçom para completar com Sangue de Boi.

Última foto em Hong Kong.

Pegamos o voo sem escalas de cinco horas de duração com a ilustre desconhecida Mandala Airlines. Só por curiosidade: as companhias aéreas da Indonésia possuem um histórico tão ruim de segurança que foram proibidas de voar para a Europa. Tivemos sorte de conseguir o assento ao lado da saída de emergência – sim, “sorte”, pois os lugares não são marcados. E além de podermos sair voando pela estratosfera ao menor sinal de turbulência, também tínhamos a vantagem do maior espaço para esticar os pés.

Ainda durante o trajeto já dá pra ter uma ideia do nosso novo destino. O povo é diferente, até as comissárias apresentam feições mais características ao estereótipo indonésio, de pele bem mais morena que a maioria dos orientais. Alguns passageiros não param sentados e têm de ser controlados. O menu de refeições vai passando – até a água é paga! -, mas os valores são todos em rúpias, moeda tão desvalorizada que faz até um lanche de avião parecer barato.

Pousamos tranquilamente, apesar do tempo nublado. Ao descermos na pista, que surpresa! Um ônibus pré-histórico nos aguardava, para levar de um terminal ao outro. Não bastasse o veículo estar todo enferrujado por fora, em seu interior pingos d’água caiam do teto, molhando todos os passageiros que iam espremidos e em pé! Para nos sentirmos em casa, só faltou alguém ligar o celular tocando funk carioca bem alto.

Passamos sem maiores problemas pela imigração indonésia, que nem se preocupou em abrir nossas mochilas para checar a lata de chocolate em pó que trazíamos – em Hong Kong abriram. Para um país com pena de morte para tráfico de drogas, andam bem relapsos por aqui. Por via das dúvidas, nossa canga com a bandeira do Brasil estampada também estava bem escondidinha. O conceito de droga é muito particular.

O aeroporto fica a 3 km da praia mais próxima, Kuta Beach. Resolvemos não pegar um táxi (taxistas são taxistas em qualquer lugar do mundo, entendam como quiser) e seguimos andando. Para nossa surpresa, ao contrário do que dizem os guias, não encaramos nenhuma multidão querendo pegar nossas mochilas, oferecendo serviços ou nos empurrando dentro de carros. Tudo estava muito tranquilo, relax, na paz, como parece ser o estilo balinês de se viver. Apesar da Indonésia ser um país majoritariamente muçulmano, é na ilha de Bali que os hindus e budistas se refugiam, criando um ambiente completamente zen.

Nos perdemos algumas vezes e fomos pedindo informação pelo caminho. E aqui, a primeira lição: não importa onde você vá ou com quem você fale, da criança ao policial, da caixa do mercado à balconista da farmácia, por aqui todo mundo fala inglês, nem que seja o básico. Apesar da primeira impressão horrível na chegada, a alegria, paz e competência do povo começava a mudar um pouco nossa imagem do país.

Ao nos aproximarmos de Kuta, o movimento de gente vai se intensificando e os sinais de que estamos no “centro” tornam-se mais perceptíveis. Motos, muitas motos. Crianças saindo da escola. Templos e restaurantes, um cheiro de comida misturado com incenso pelo ar. E calor, um calor insuportável que nos fazia suar e ficar com os cabelos molhados, mesmo na ausência do sol.

Kuta, definitivamente, não é o lugar que melhor representa a cultura balinesa. Por aqui, reina a cultura consumista e bagunçada importada dos jovens australianos, que lotam o local em busca das melhores ondas de surf a um custo ínfimo. Até a geografia de Kuta é péssima: O bairro é basicamente um retângulo, com uma rua principal e cheia de becos irregulares, onde motos e gente circulam freneticamente. Mão, contramão? Esses são conceitos que parecem ainda não ter chegado por aqui. Tudo se junta, se mistura, se esbarra, mas incrivelmente há uma ordem em meio à toda confusão.

A busca por um lugar para ficar não parece ser tão fácil quanto pensamos, e o cansaço da viagem e o calor pesam. Felizmente a sorte está ao nosso favor e encontramos um lugar bem legal: Bali 15land Guesthouse. Não é o lugar mais barato, mas certamente é o mais confortável que poderemos encontrar. Por U$14, teremos um quarto com ar-condicionado, geladeira, cama bem confortável e até televisão, além da localização excelente.

Tirar uns dois dias para nos situarmos por aqui é essencial, e nosso quarto parecia ser o refúgio perfeito para planejar os próximos passeios. Sem a correria de Hong Kong, a ideia aqui é descansar. Férias das férias? Talvez.

Kuta também é repleta de camelódromos vendendo todo tipo de quinquilharia. Roupas, eletrônicos, material de pesca e mergulho, tem tudo aqui. Nem sempre de boa procedência…

Li em diversos guias que os comerciantes e touts (pessoas que ficam nas ruas oferecendo todo tipo de serviço) seriam agressivos e insistentes, mas a verdade é que ou eu estou muito acostumado a ser importunado ou então o pessoal daqui só me parece querer trabalhar, mesmo. Sim, de tempos em tempos virão lhe oferecer “transport? motorbike? cheap room? good price!”, mas basta um sorriso no rosto e um “não” educado, e logo param. Se você se esforçar o suficiente para aprender a dizer “não, obrigado” no idioma deles (“Tidak, terima kasih“), melhor ainda, pois parecerá mais simpático ainda.

Apesar de todos os problemas, é possível mesmo em Kuta sair um pouco do meio turístico e se infiltrar nos lugares onde os locais frequentam. Conhecemos alguns warungs e nos fartamos de comida boa e barata. Um prato de comida pode sair a partir de R$2, e a bebida (normalmente chá ou suco da fruta) entre R$0,50 a R$1.

A graça da coisa é que, por darmos preferência aos lugares que não são frequentados pelos turistas, enfrentamos a ausência de menus em inglês e ficamos a mercê da sorte ao escolher uma refeição. É uma espécie de roleta russa culinária: às vezes vem frango com batata frita, às vezes vem cérebro de macaco…

Vamos aproveitando o tempinho em Bali para conhecer a praia, que não é das mais bonitas mas tem seu charme.

É interessante notar que, apesar do ambiente não ser dos melhores por conta da desorganização, parece que a ausência de drogas e o pouco consumo de bebida alcoólica (a única coisa cara por aqui, graças aos impostos) torna tudo bem seguro. Mesmo à noite, nas ruas pouco iluminadas, é possível ver turistas e locais, às vezes até crianças, indo e vindo tranquilamente, sem preocupações. O clima aqui é de “paz e amor”, só que sem drogas.

A moeda local, rúpias indonésias, é bem desvalorizada, e qualquer ida ao caixa eletrônico faz você se sentir milionário.

Entre praias e boas comidas, vamos nos despedindo de Kuta…

É hora de ir nos preparando para o próximo destino: Ubud, o cenário do filme “Comer, Rezar, Amar”, com seus incríveis templos e campos de plantação de arroz!