Malásia – O Que Vimos e Quanto Gastamos?

A Malásia foi um país que nos ensinou várias lições.

A primeira delas: Não vá à Malásia.

Ok, exagero. Quem somos nós para querermos definir um país em apenas 6 dias? A verdade é que realmente não tivemos um bom tempo por lá.

Em partes, é claro. Por que se tem duas coisas que a Malásia teve de bom, foram as pessoas e as comidas!

Tivemos o prazer de ficarmos hospedados na casa da Wendy, uma malaia sensacional que nos deu muitas dicas e nos fez entender melhor esse verdadeiro caldeirão cultural que é o país. Aliás, ela também foi a responsável por nos viciar (!) em delícias como dragon fruit, além do delicioso chá teh tarik com panqueca roti canai.

Apesar de ser encontrado nos restaurantes indianos-muçulmanos, essas duas belezinhas aí são receitas tipicamente malaias e simplesmente fizeram nossa cabeça. Vale a pena pesquisar a receita e tentar fazer em casa, especialmente o chá, que basicamente leva chá preto e leite condensado e tem uma maneira bem peculiar de ser feito.

ORÇAMENTO

A Malásia é um famoso destino de compras e, como é de se imaginar, tudo é bem barato por lá. Principalmente hospedagem, alimentação, eletrônicos e roupas em geral – compramos uma camiseta e um óculos de mergulho por lá! Pode-se dizer que o custo de vida é bem parecido com os dos países mais baratos do Sudeste Asiático.

No período de nossa passagem por lá (Março/2014), U$1 equivalia a 3,2 Ringgits. Estabelecemos como teto máximo diário a média de U$40. Eis a nossa planilha:

malaysiaRaspando, mas milagrosamente conseguimos não passar da meta gastando apenas a média de U$38,64 por dia, em uma economia de U$1,36 por dia ou U$8,16 poupados em relação ao orçamento original.

Dizemos que foi uma milagre porque tivemos vários gastos não planejados. A começar pelas hospedagens, já que nossa ideia era ficar na casa de nossos amigos do Couchsurfing durante toda nossa estadia. Infelizmente alguns contratempos fizeram com que tivéssemos que nos adaptar, e sorte nossa que os preços eram bem em conta.

Outro fator complicado foi a alimentação. Apesar de termos gostado bastante dos pratos típicos malaios que provamos, a maior parte dos restaurantes locais tinham um método de precificação bem diferente aos nossos olhos brasileiros, acostumados com self-service a quilo. Não conseguimos entender como eles funcionavam e acabamos ficando restritos aos restaurantes mais turísticos e com cardápio mais ocidentalizado. Isso quando não apelávamos para o fast food, mesmo.

Já o transporte, apesar de ter sido nosso maior gasto, justifica-se: cruzamos o país de uma ponta a outra em trens noturnos! Os trens são confiáveis e as passagens muito baratas. Infelizmente tivemos que pegar alguns táxis também.

Mesmo com alguns gastos no campo Misc. relacionados a compra de alguns itens necessários de última hora, ficamos satisfeitos com o resultado final, que nos mostrou que conseguimos lidar bem com imprevistos e não estourar nossa meta. Já basta aquele susto em Singapura!

Confesso que saímos com certo alívio da Malásia. Talvez não fosse a hora certa de estarmos lá… Em compensação, chegamos no momento perfeito na Tailândia!

É Langkawi, mas pode chamar de Guarujá

44 ao 46º Dia – Langkawi, 12 a 14 de Março de 2014.

Viajar de trem é legal, mas cansa. Especialmente se as cadeiras da segunda classe não reclinam… aí o jeito é se virar como pode e tentar ter uma noite agradável de sono.

Apesar dos pesares, a viagem corre tranquila, como de praxe. Não bastasse ser muito fácil e barato viajar de trem pela Malásia, tudo é muito seguro e os horários são respeitados. Chegamos pela manhã em na estação de Arau, onde seguiríamos para o porto de Kuala Perlis pegar o ferry até a ilha de Langkawi.

Ainda na estação, um mochileiro russo veio falar com a gente. Era Sergei (que criatividade esses russos têm para nomes, hein?), que com um inglês sofrível tentava nos convencer a rachar um táxi com ele. É nessas horas que fico feliz por ter sido fã de t.A.T.u na adolescência. Com alguma dificuldade conseguimos nos comunicar e alguns minutos depois estávamos no táxi. Táxi compartilhado, preço mais barato pra todo mundo, uma maravilha, certo?

Só que o russo era muuuuuito mala. Além de marcar umas bobeiras grotescas (ficar usando o tablet e mexer com grandes maços de dinheiro ao lado do motorista, por exemplo, coisas impensáveis pra nós brasileiros), o cidadão era meio carente, e logo queria saber para quais praias visitaríamos, onde iríamos ficar, etc, etc. Tão logo descobriu que iríamos para a mesma praia que ele, pediu para acompanhar a gente nos próximos dias. E quando eu caí na besteira de dizer que ficaríamos na casa de um amigo do Couchsurfing… pronto, o camaradóvski implorou para dividir o quarto também!

Carol no ferry de Kuala Perlis à Langkawi. Reparem a felicidade da nossa amiga muçulmana…

Assim que entrarmos no ferry, fomos agraciados com o fato de saber que as cadeiras eram numeradas. Nos livramos do russo por um tempo. A viagem não é longa, e em pouco mais de uma hora chegaríamos à ilha. Durante o trajeto, vamos percebendo os tipos que vão nos acompanhando.

A maioria dos passageiros é de origem iraniana. As características físicas dos persas, além do idioma, são muito perceptíveis. Fora que todos seguem um estilo bem parecido: os homens têm o mesmo corte de cabelo – quando têm cabelo -, e usam barba. As mulheres são tímidas e usam véus. Viajam em família, nunca em casal, com irmão, tia, cunhado, avó… Além da renca de filhos.

Se a Malásia fosse o Brasil, então os iranianos seriam os argentinos…

É interessante notar o porquê dessa galera estar viajando por aqui. Acredite se quiser, mas a Malásia é um dos 10 países mais visitados do mundo, em parte graças ao aeroporto de Kuala Lumpur ser um dos maiores hubs da Ásia, com conexões para praticamente todo os cantos do globo. Os iranianos dão uma forcinha a mais nesses números porque basicamente é o único lugar que podem viajar.

“Você já parou pra pensar o quão inútil é um passaporte iraniano?”, nos explicou Wendy, nossa anfitriã em KL. É verdade: você não pode ir aos EUA ou a Europa porque é visto como potencial terrorista, os vistos para China ou Japão são dificílimos, e não pode nem sequer pensar em ir à Israel porque lá você seria mais mal-visto que a reencarnação de Hitler. Ir ao Brasil – único lugar do mundo onde Ahmadinejad é admirado – até seria uma opção, se esse não fosse um destino tão longe e caro.

E o que sobra? A Malásia, é claro. Especialmente as praias, o que basicamente faz a fama da ilha de Langkawi.

Ainda em KL, nossa anfitriã também nos explicou que o passaporte malaio – juntamente com o brasileiro – é um dos mais falsificados do mundo. Por U$ 20.000 no mercado negro, qualquer um pode ser malaio. Descobri que até eu pareço com o povo do norte do país.

Foi com certa precipitação que a mídia saiu apontando um provável atentado terrorista no caso do sumiço do voo MH370, usando como evidência o fato de um passageiro iraniano estar usando um passaporte falso. Fato é que esse coitado apenas devia estar tentando imigrar. Como descobríamos desde já, o povo do Irã é bem pacífico e até simpático.

Moleque iraniano (parecidíssimo com o do filme “O Iluminado”, veja só) tocando o TERROR no ferry. Deixar os filhos andando soltos por aí foi o máximo de comportamento incomum que percebemos nos iranianos até agora.

Enfim chegamos à Langkawi e o russo logo veio pra perto da gente – ô cara grudento! -, mas por uma providência divina ele ficou apertado e pediu para que o aguardássemos enquanto ele ia ao banheiro. “Claaaaaaro”, e na primeira oportunidade, nos misturamos à multidão que saía do ferry e nunca mais nos vimos.

Enfim, Langkawi!

Primeira surpresa chata: a ilha não é grande, é enorme! Tivemos que pegar um táxi – uma das coisas que mais odiamos fazer nessa vida – e fazer uma viagem de meia-hora até chegar à praia de Cenang, a principal da ilha, onde nosso anfitrião do Couchsurfing nos receberia.

Eu estava ansioso para conhecer o Jammie, já que ele havia dado a volta ao mundo nos anos 80 (!) de bicicleta (!!) e oferecia gratuitamente um quarto em frente à praia simplesmente para “pagar com gratidão toda a generosidade que recebeu em sua viagem na juventude” (!!!). Inspirador, não?

Mas aí mais uma sequência de problemas se sucedeu… Não conseguimos achar o endereço. Pegamos outro táxi, e nem o taxista sabia como chegar. Demos voltas e voltas, perdemos dinheiro, e nada. Nessa hora eu estava tão estressado que minha vontade era pegar a Carol pelo braço e entramos no primeiro ferry em direção à Tailândia.

Parabéns, Malásia: você é um teste para qualquer relacionamento!

Infelizmente tivemos que desistir de buscar pela casa de nosso ex-futuro-anfitrião e fomos procurar algum lugar para passar a noite, mesmo. Por sorte a ilha de Langkawi não é um lugar caro – pelo contrário, é um destino duty free, onde muitos turistas vêm interessados nos preços baratos da cerveja e dos produtos importados.

Haja vista nossa incrível capacidade de encontrar muquifos, o escolhido dessa vez foi o decrépito Amani Guesthouse. É uma pena não termos tirado fotos da fachada do prédio, que mais parecia uma daquelas invasões em edifícios não acabados. O recepcionista era um tio barrigudo sem camisa, que dormia no sofá na hora que chegamos. O lugar todo parece funcionar na base da “compensação”. O banheiro não tem pia, o vaso não tem descarga e o chuveiro é ruim, mas oferecem toalhas macias e confortáveis de graça. Não tem TV, mas tem frigobar. É abafado, mas o ventilador funciona que é uma beleza. A aparência do quarto é velha e decadente, mas a cama é uma delícia. E por RM 40, que logo negociei para RM 35 (U$11), nem tínhamos do que reclamar.

A localização era perfeita. Bastava atravessar a rua e lé estávamos nós, enfim, em Cenang Beach, a praia mais famosa da ilha de Langkawi.

E como era de se imaginar – ei, isso é Malásia, lembram? – a praia não era nada demais. Desculpa, mas depois de Bali, acho que ficamos meio chatos com praia. Langkawi não foi capaz de atender as expectativas, e pra gente foi como se tivéssemos ido para o Guarujá…

Pelo menos o pôr do sol era bonito.

Depois do dia estressante que tivemos, resolvemos desencanar e tentar aproveitar um pouco. Ficamos então curtindo as últimas horas do sol, enquanto as famílias iranianas se divertiam com a sensação de liberdade que o mar causa na gente. É, somos todos iguais…

No outro dia, mais praia! O aeroporto não era muito distante e toda hora um avião passava perto levantando a areia. Em tempos de voos sumidos na Malásia, ficávamos só imaginando o sentimento de cada um dos passageiros a cada pouso e decolagem.

E vamos ficando mais calmos aos poucos, esquecendo os estresses dos dias anteriores e já planejando nossa ida ao próximo destino. De Langkawi existe um ferry para Satun, nossa primeira parada na Tailândia.

O recepcionista descamisado nos informa que vai ter uma feirinha noturna na ilha. Uma excelente oportunidade de fecharmos a Malásia com chave de ouro.

A feirinha realmente foi ótima – um dos destaques da Malásia nessa viagem -, com comidas gostosas e bem baratinhas. Nem sempre higiênicas, é claro, porque aí seria pedir demais. E como gostamos de entrar a fundo nos costumes locais, até arriscamos deixar os talheres de lado e comer com a mão mesmo.

Além de comida, há até umas lojinhas de roupa e enfim coço o bolso e compro uma camisa de U$3, que fazia falta, já que só viajo com 3 dessas peças de roupa e havia perdido uma em Bali.

Adeus Langkawi, adeus Malásia. Já deu o que tinha que dar. Era hora de entrar no ferry e curtir nossa primeira travessia internacional pelo mar… Em algumas horas daríamos as boas-vindas a um dos destinos mais aguardados por nós, a incrível Tailândia!

Em Busca de uma Malásia mais Light

41 ao 43º Dia – Kuala Lumpur, 9 a 11 de Março de 2014.

A Malásia não foi um país que nos apaixonamos à primeira vista. Nem à segunda. Desde a chegada por terra de Singapura até a ida à Kuala Lumpur, ainda estávamos muito aborrecidos com todas as semelhanças que esse país do Sudeste Asiático tem com o Brasil – lugar que, não custa lembrar, saímos porque já estávamos bem incomodados. Até agora, o incômodo na Malásia era o mesmo.

Mas a situação estava prestes a mudar graças a uma pessoa incrível. Era a Wendy, nossa anfitriã do Couchsurfing que gentilmente nos receberia em sua casa confortável a partir do nosso segundo dia no país – um alívio após termos passado nossa primeira noite em KL num muquifo.

Tão logo chegamos à sua residência, no subúrbio de KL, fomos recebidos como parentes que não se viam há um bom tempo. Fomos super bem tratados, com direito à um jantar delicioso e até legítimas dragon fruits de sobremesa!

Agora que tínhamos uma amiga local, conhecíamos um pouco mais da instigante cultura desse país e, lentamente, fomos percebendo que ele talvez não fosse tão ruim assim. A Malásia ainda tinha muito mais a oferecer do que simplesmente cidades caóticas com buzinas e poluição.

Fomos comprovar isso no outro dia, quando pegamos o trem metropolitano para visitar o famoso templo hindu de Batu Caves, que como o próprio nome diz, fica dentro de uma caverna!

Em um país de maioria muçulmana é assim: nada de “comportamento indecente”.

O templo, encravado entre as montanhas, fica em um belo complexo com outros santuários menores e algumas atrações pagas. Felizmente, por ser o templo hindu mais visitado da Malásia, a Batu Caves é gratuita.

As dimensões do lugar impressionam. Não só pelos quase 50 metros de altura do pomposo deus hindu Murugan, mas também pelos 272 degraus necessários para se chegar até o topo, basicamente onde o templo começa.

Como é comum em quase todos os templos do Sudeste Asiático, macaquinhos rondam o local, acostumados a presença dos humanos e sempre espertos o bastante para cometer pequenos furtos.

A entrada do santuário é através de uma imensa fenda aberta entre as rochas, coisa linda de se ver:

Lá dentro, impossível não lembrar-me do santuário de Bom Jesus da Lapa, no sertão baiano, onde passei parte da minha infância. Ambos os lugares guardam certas semelhanças entre si, seja na arquitetura, formato da natureza e capacidade de atrair peregrinos. O que me leva mais uma vez a pensar que a Malásia e o Brasil são realmente parecidíssimos…

Só que ao contrário dos santos católicos, em Batu Caves são os deuses hindus que pululam pelas rochas, atraindo oferendas e rezas dos fieis que vão até lá prestar sua adoração.

As formações rochosas são indiscutivelmente bonitas, e além da caverna principal, também existem outras por perto bem menos iluminadas e mais “naturais”, onde os corajosos fazem expedições em seu interior a fim de observar animais como morcegos, cobras e escorpiões… Preferimos ficar com os macacos do lado de fora, mesmo.

Em baixo novamente, vamos contemplando o ambiente e vendo a diversidade de pessoas e culturas ali presentes – um resumo de como é a Malásia.

Três diferentes grupos se destacam na multidão: os indianos, os chineses e o malaios de origem muçulmana. Apesar da coexistência de todos, a separação social é bem perceptível.

De volta ao lar de nossa anfitriã, resolvemos preparar um prato típico. Wendy já havia viajado ao Brasil – a trabalho, como a maioria dos estrangeiros que conhecemos – e havia ficado traumatizada com a comida repetitiva. (“Eu não aguentava mais arroz e feijão todo dia!“). Carol então usa seus dotes culinários e cozinha um delicioso cação ao leite de coco, que surpreende as papilas degustativas de nossa amiga. Aprovado!

No outro dia resolvemos dar mais uma chance ao centro de Kuala Lumpur. Pegamos o trem na estação próxima à casa de Wendy e lá fomos nós…

Passeamos novamente por Chinatown, nossa antiga “casa”, e aproveitamos para conhecer um bonito parque por perto.

Como sempre a arquitetura islâmica chama bastante a atenção. Ainda no parque, acabamos descobrindo que a Malásia também tem o seu próprio Stonehenge

No lugar também havia um jardim de borboletas, museus e até um observatório, mas infelizmente não tivemos a oportunidade de conhecê-los.

Nosso último dia em Kuala Lumpur foi marcado pelo cansaço físico e mental que essa cidade nos deu. Resolvemos nem sair do bairro de nossa amiga, e ficamos apenas andando pelas ruas próximas mesmo, comendo no Mc Donald’s halal, tomando sorvete de durian e conversando com as crianças da vizinhança – que a julgar pelo inglês perfeito, só posso tecer elogios à educação malaia, que parece estar no caminho certo.

Mas ainda há muita estrada… tanto pra Malásia quanto pra gente. Com um aperto gigante no coração nos despedimos da nossa amiga, que até nos deu uma carona para a estação de trem. De lá sairíamos para Kuala Perlis, no extremo norte da Malásia. Seria mais uma longa viagem noturna pelos trilhos do país, onde seguiríamos depois rumo à Langkawi, uma ilha que diziam ser “linda”, “paradisíaca”, e tudo o mais… Mas isso é Malásia, né? Tinha que ter alguma surpresa no meio. E teve.

Próxima parada: ilha de Langkawi!

Ahaa, Uhuu, Socorro, Estamos em Kuala Lumpur!

40º Dia – Kuala Lumpur, 8 de Março de 2014.

Após uma longa noite de viagem de trem, enfim chegamos à capital da Malásia! Começamos com o pé esquerdo: nosso anfitrião do Couchsurfing não havia passado o endereço, estávamos sem guias da cidade e não sabíamos para onde ir. Se tem uma coisa chata em uma viagem de volta ao mundo é a leve sensação de estar perdido… e nós estávamos totalmente!

Para nossa sorte, encontramos uma tomada disponível e conseguimos obter algumas informações pelo netbook sobre a cidade. Logo definimos o bairro de Chinatown como nossa parada, pois ali localizam-se as acomodações mais baratas de “KL“, como chamam os locais. Estávamos na estação ferroviária central, e de lá bastou pegarmos um monotrilho e em poucos minutos estávamos no bairro chinês.

Como é de praxe, camelôs e barraquinhas de comida espalhavam-se pelo ambiente. Chinatowns são sempre iguais, com honrosa exceção para a de Singapura, que ao menos é limpa.

O lugar é bem localizado, próximo ao centro, e talvez por isso é apinhado de gente para todos os lados. E quando se está com um mochilão nas costas, digamos que andar entre multidões não seja uma experiência das mais agradáveis…

Apesar de ainda ser de manhã, o calor era insuportável. Assim seriam todos os dias. Chegamos em uma época onde não chovia há mais de 3 meses na cidade. Some isso a um elevado índice de poluição e você tem como resultado uma qualidade de ar péssima – mas que pelo menos cria belas imagens como essa: o sol vira uma bola de fogo no céu poluído.

Com algum esforço, encontramos um cafofo obscuro para passar a noite. Era o Backpacker’s Travellers Inn, lugarzinho bem mais ou menos, uma espécie de hostel com crise de identidade, com banheiros compartilhados e quartos privativos sem janelas que mais pareciam uma solitária. Mas por 40 RM (U$12), não dava pra reclamar muito. Apesar do aspecto medonho de filme de terror, até que o lugar era simpático e acabamos gostando no final.

Cumprimos o ritual de sempre antes de sairmos para explorar a cidade: descarregamos as mochilas, espalhamos nossas roupas pelo quarto e eu, é claro, tratei de registrar nossa passagem pelo local rabiscando o verso do quadro pendurado na parede. É mais um dos hábitos estranhos que adquiri nessa viagem. Aliás, se um dia você for ao Sudeste Asiático, dê uma olhada atrás da moldura do quadro ou espelho geralmente presente nos quartos: Se tiver um coraçãozinho desenhado escrito “Wendell e Carol”, com a data e o endereço deste blog, você saberá que passamos por lá. 🙂

Andar pelas ruas de Kuala Lumpur é um martírio. O trânsito é infernal e “calçada” é um conceito ainda inexistente por lá. Anda-se no meio dos carros, respirando fumaça e desviando dos retrovisores.

O transporte público sobre trilhos da cidade é realmente funcional, mas a profusão de linhas de monotrilho formando “minhocões” na paisagem chega a ser agressiva. Juntamente com a publicidade exagerada e quase sempre brilhante, Kuala Lumpur parece uma espécie de São Paulo futurística pós-hecatombe.

Aliás, taí uma definição que desde cedo nos fez pensar. Toda a sujeira e a aparente sensação de insegurança dessa metrópole nos fez pensar em um lugar que conhecemos muito bem… E digo mais: Se não fosse pelas mesquitas e monumentos islâmicos espalhados em cada esquina, Kuala Lumpur poderia ser facilmente confundida com qualquer grande cidade brasileira.

Sem saber mais se estávamos em Rio Comprido ou em Kuala Lumpur, no Brás ou na Ásia, decidimos voltar correndo pra “casa” – é assim que, sem querer, acabamos chamando as acomodações onde pernoitamos. Já estávamos fartos da República Federativa Islâmica do Brasil, ou melhor, Malásia.

À tardinha, com fome, resolvemos dar mais uma chance para a rua e fomos em busca de algo para comer. E mais uma vez fomos surpreendidos pela inaptidão dos restaurantes locais em informarem os preços. A maioria funcionavam como self-service, mas eram incapazes de explicar o modus operandi dos preços. “Comida a quilo” é uma invenção tipicamente brasileira, sem balança e muito menos sem funcionários que pudessem falar inglês, realmente não sabíamos como… comer! Se você souber como funciona um self-service da Malásia, por favor, explique-nos.

Mesmo sendo um país relativamente barato, o medo de ser sobretaxado pela fato de ser turista é algo que quase sempre ronda nossas cabeças – apesar de, até hoje, sempre termos sido respeitados nessa questão. Preferimos não arriscar. Após discussões acaloradas e stress de ambos os lados, optamos pelos óbvios fast foods da região. No Sudeste Asiático, Mc Donald’s, KFCs e Burguer Kings sempre serão opções baratas de refeição, apesar de nada tradicionais. A graça daqui era ver nas embalagem dos sanduíches o símbolo de “Halal”, como é conhecido o método muçulmano de cozinhar de acordo com os preceitos do Alcorão.

Contanto que lavassem as mãos antes de pegar nos hambúrgueres, já estávamos felizes…

Felizmente encontramos opções locais de lanches que nos fizeram ficar menos aborrecidos com a culinária malaia. Arranjamos um pastelzinho delicioso de ovo com batata doce ao curry (!), acompanhado de um caldo de cana geladíssimo.

Ainda assim, estava difícil acomodar-se ao estilo de vida da “cidade grande”. Tínhamos vindo de 24 excelentes dias de descanso em Bali, e logo depois fomos introduzidos mansamente à super qualidade de vida de Singapura. Encarar uma Malásia, com problemas e mazelas tão conhecidos da gente (mas que já tínhamos quase esquecido…), mexeu como nossos ânimos. Nunca brigamos tanto. Nunca gritamos tanto.

Aliás, se tem uma coisa boa na Malásia em comparação com o Brasil é que lá ninguém fala português. O que é ótimo para xingar bem alto – o país, o clima, o trânsito, o cônjuge, tanto faz – sem ser notado nem repreendido. Como se não bastasse toda nossa dificuldade de adaptação, ainda fomos premiados no dia de nossa chegada com a coincidência do início do mistério do voo MH370. Maravilha: Estávamos em um país que misturava desordem, regresso e consternação por uma possível tragédia.

Decididos a não deixar que todas as chateações arruinassem com nosso dia, fomos em busca do símbolo de modernidade de Kuala Lumpur: as Petronas Towers, maiores torres gêmeas do mundo!

Os prédios são inegavelmente bonitos, mas chega a ser até destoante colocá-los em uma cidade tão… feia. Por que verdade seja dita: Com exceção dessas torres, não há em KL nenhum outro edifício digno de nota.

Conforme vai anoitecendo, os arranha-céus vão ficando cada vez mais lindos, graças à iluminação de bom gosto.

O mesmo não pode ser dito do show de água e luzes que tentaram fazer na pracinha ao redor… bem sem graça, nem se compara ao que vimos em Macau. Além do mais, não tem nada de autêntico: a música de fundo é um daqueles sons pop turcos da trilha sonora de alguma novela da Glória Perez. Ficou artificial demais, para dizer o mínimo.

Em nosso segundo dia no país, a Malásia não havia conseguido nos conquistar. Kuala Lumpur, sua capital, muito menos. Felizmente ainda tínhamos algum tempo para explorar o país e ter melhores experiências…

Malásia, a Ásia do Mal? – Primeiras Impressões

39º Dia – Johor Bahru, 7 de Março de 2014.

Ainda em Singapura, tivemos a oportunidade de ficar hospedados via Couchsurfing na casa de uma família típica de Singapura. Ou talvez nem tão típica assim – o pai, Mr. Loke, era um senhor que já deu várias voltas ao mundo a trabalho (“É um saco ter que trocar de passaporte todo ano…”) e chegou a visitar o Brasil algumas vezes. Feliz por ter brasileiros em casa, principalmente após lhe termos feito relembrar o sabor do arroz com feijão e até uma caipirinha tosca que arriscamos, nosso amigo resolveu atravessar de carro todo o território de Singapura e, com a gente de carona, atravessar a fronteira da Malásia!

Falando assim até parece uma road trip daquelas, mas a verdade é que Singapura tem menos da metade do tamanho da cidade de São Paulo. Ou seja, em pouco mais de meia-hora estávamos carimbando nossos passaportes e entrando em território malaio!

A diferença entre os dois países é brutal. Singapura é rica, moderna e organizada nos mínimos detalhes, mas a primeira impressão que a Malásia nos causou foi totalmente o contrário disso! Assim que atravessamos a causeway, vimos como a cidade fronteiriça de Johor Bahru era suja, pichada, cheia de cortiços, poluída e com um aspecto terrível de abandonada. Entramos em um shopping para comprar água e o lugar fedia a durian. Logo entendemos o porquê do país vizinho ter proibido o consumo dessa fruta em locais fechados… Aliás, entendemos boa parte das proibições de Singapura. Tudo na Malásia desde já aparentava ser desorganizado e sem lei.

Nossa travessia por terra entre os dois países tinha um propósito: era dessa primeira cidade que pegaríamos um trem noturno de longa distância e iríamos para Kuala Lumpur. Ao longo dos próximos textos ainda falaremos muito mal da Malásia, mas uma coisa precisamos admitir: o sistema de transportes ferroviário do país realmente funciona, e é admirável a facilidade de cruzar o país de uma ponta a outra somente usando trens.

O problema de ter pego a carona com Mr. Loke é que acabamos chegando cedo demais na Malásia. Ainda não era hora do almoço e já estávamos lá, mas nosso trem só partiria de madrugada. Foi aí então que nosso simpático amigo resolveu fazer um tour com a gente pelas “maravilhas” de uma cidade fronteiriça no meio do nada como aquela. Shoppings duty free, cassinos, inferninhos bizarros frequentados por mafiosos, restaurantes de qualidade duvidosa e a presença de imigrantes indianos que sempre eram apresentados como “amigos”, apesar da clara falta de intimidade e nítida relação de prestação de serviços entre as partes.

Era engraçado ver um cidadão de Singapura tão à vontade naquele lugar. E foi observando que percebemos que a relação entre o povo singapuriano com a Malásia é bem parecida com a que os brasileiros têm com o Paraguai. Assim como fazemos em nosso vizinho mais pobre, é aqui que o pessoal de Singapura vem abastecer o carro com combustível mais barato, comprar bugigangas, fazer um passeio de fim de semana, etc. Ficávamos cheios de medo ao atravessar as ruas movimentas de trânsito frenético da cidade, sem sinais ou faixas de pedestre, mas Mr. Loke, ao contrário, atravessava no meio da rua devagar, sorrindo e acenando… Quando em Singapura ele teria a oportunidade de “desafiar o sistema” desse jeito?

Algumas horas depois, já nem ligávamos mais quando Mr. Loke – após lavar o carro, cortar o cabelo e fazer algumas compras (“Aqui é tudo tão mais barato que Singapura!”) – nos levava a algum lugar desconhecido e apresentava mais alguns de seus “amigos”. No fim do dia, ele ainda pagou nossa janta e até parou em uma farmácia para comprar um xarope anti-tosse (!) pra gente, haja vista a tosse irritante que nos acompanhou durante nossa estadia.

O homem, o mito.

No final das contas, acabamos tendo um dia mais divertido do que o esperado e enfim estávamos prontos para encarar as longas horas de trem que nos separavam da capital da Malásia.

Escolhemos o vagão da segunda classe, e até que a viagem não foi das piores. O assentos não reclinavam, mas eram confortáveis. Chegamos no início da manhã em Kuala Lumpur, em seu gigante terminal ferroviário. Essa cidade ainda nos reservaria boas surpresas… Ou talvez nem tão boas assim.