Aviso aos navegantes…

Destacado

Pra quem acompanha nosso blog, já deve ter dado pra perceber que estamos meio desatualizados, né? Desculpem 🙂

Enquanto vamos atualizando aos poucos nosso humilde diário de viagem, acompanhem a nossa página no Facebook (http://www.facebook.com/wendellandcarol), onde postamos as fotos mais recentes alguns pequenos textos.

Prometemos em breve atualizar essa joça!

Obrigado 🙂

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Reflexões de 2 Meses de Viagem

Dando continuidade às nossas reflexões de viagem, segue o nosso aprendizado até o presente momento – o segundo mês de viagem!

1. CABELO ESCROTO É REGRA, NÃO EXCEÇÃO

Não sabemos o que se passa na cabeça das pessoas.Literalmente.

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Estrangeiros ou locais, homens os mulheres, velhos e até crianças, não importa. A regra é ter o cabelo mais esquisito possível, com cores e cortes bem fora do convencional.

Afinal, qual será a explicação pra isso? Está sobrando gente com mullets no mundo, costeletas encaracoladas, tranças nas carecas, cabelo longo com laterais raspadas, franjas pela metade e as piores – eu disse AS PIORES – variações possíveis do corte de cabelo do Neymar.

Imagine o estilo capilar mais absurdo possível. Ele existe na Ásia, só que pior.

2. FOFOCA, UM ESPORTE MUNDIAL

Sempre ouvimos que no Brasil a fofoca é um esporte nacional.

Mentira.

Fofoca é um esporte mundial, e deveria até ter competição, Copa, Olimpíadas e tal. Não me refiro aos rumores e calúnias desrespeitosas, mas sim àquela fofoca arte, fofoca moleque, aquela fofoquinha inofensiva do tipo “Fulano engordou, hein”, “Ciclano só tem roupa brega” ou “Beltrano tá com um bafo…”

Descobrimos isso meio que ao acaso, graças aos pequenos incidentes do cotidiano. Hospedar-se via Couchsurfing é uma fonte inesgotável e oportunidade única para isso. Lá está você, sereno e serelepe, quando de repente o seu anfitrião – que também está recebendo outros hóspedes – começa a ter problema com um deles. Sem ter muito para onde recorrer, acaba confessando a você tudo que lhe desagrada.

Logo o tom da conversa fica mais baixo, a distância mais próxima, os olhares tornam-se cúmplices, e por fim, risadas contidas e meneios com a cabeça selam a pequena intimidade conquistada.

Quando isso acontecer, já era. Sente-se, relaxe, seja todo ouvidos e prepare-se para aprender novos vocabulários que curso de inglês nenhum ensina. Você estará oficialmente fofocando, e descobrindo que estrangeiros também o fazem, igualzinho como no Brasil.

3. EUROPEUS, UM POVO MUITCHO LOCO

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Verdade seja dita: os europeus são um povo incrível. Curiosos de nascença e com aptidão para explorar, é graças a eles que meio mundo foi descoberto. O que seria de nós sem Critóvãos Colombos e Pedros Álvares Cabrais?

Essa natureza inata e típica do europeu o acompanha até hoje, principalmente os jovens que, repetindo os passos de seus antepassados, colocam uma mochila nas costas e dedicam-se a conhecer sobre as culturas e costumes dos lugares mais diferentes do planeta. O que os torna mais cultos e respeitadores, certo?

Errado.

Ô povinho difícil! Temos esbarrado com vários deles pelo Sudeste Asiático, e não há um dentre eles que passe pela gente sem deixar uma história pra contar.

É o russo carente que fala um inglês sofrível e fica implorando para nos acompanhar na viagem. As suecas e holandesas que veem qualquer lugar como ideal para fazer topless ou simplesmente ficar nua, mesmo que numa praia somente com famílias ou em meio à uma comunidade islâmica. A dupla de espanhóis que dizem para o anfitrião do Couchsurfing “Adoramos sua casa, vamos só ali e já voltamos”, e então pegam a mala, saem correndo e nunca mais voltam. O alemão que começa a falar mal do país que está visitando só porque a cerveja está cara e esbraveja “isso não acontece no meu país, o meu país é perfeito!”. Ou o francês inconveniente, que cumprimenta abraçando e dando beijinho, só conversa de perto, tocando a pessoa – para horror dos anfitriões asiáticos e norte-americanos.

Sobre essa última parte, aliás, é até engraçado pensar. Dizem que nós brasileiros é que somos calorosos, grudentos, amigáveis demais. Que nada. Nesse quesito, os europeus que conhecemos estão fazendo vergonha.

Por um outro lado, é um ponto a se pensar: dizem que os europeus são um povo frio. Mas quem será mais frio, o povo que não tem a fama de abraçar e beijar ou o povo que aceita assassinato, corrupção e estupro como parte normal da vida em sociedade?

Frios são os brasileiros, isso sim.

4. MÉTODO PARA RECONHECER LATINOS NA ÁSIA

Cenário: Uma festa. Na Praia. Ou na fazenda, na casinha de sapê, tanto faz.

O DJ está tocando uma seleção musical dançante, alguns clássicos para levantar a galera. Alguns dançam, outros não. Nada demais. Então, chega a hora que o botão Play encontra com a faixa “Danza Kuduro“.

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Observe os padrões:

A) Norte-americanos não notarão diferença alguma na setlist;
B) Asiáticos esboçarão um bocejo;
C) Europeus darão um leve sorriso e continuarão seus afazeres normalmente;
D) Latinos: Levantarão imediatamente, arregalarão os olhos, começarão a fazer movimentos desengonçados com o corpo em uma tentativa vã de seguir o ritmo da música. Aqueles que souberem a letra de cor (isto é, todos) pegarão seus pares pelas mãos e, cantando o refrão, se emocionarão com a melodia (alguns chorarão), gritando e rebolando constrangedoramente, para espanto geral dos norte-americanos, asiáticos e europeus no recinto.

PS: Descobrimos, somos latinos.

5. BANHEIROS ASIÁTICOS NÃO SÃO TÃO RUINS ASSIM

Para os ocidentais, um típico banheiro asiático assusta. É capaz até de traumatizar.

À primeira vista, é difícil entender como funciona as três conchas o chuveiro que mais parece um chuveirinho gigante, ou o vaso sem assento – basicamente um buraco no chão e só.

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É necessário um pouco de dedicação e prática, ou simplesmente uma boa dor de barriga, para perceber o quão mais simples é o sistema asiático: Agachou, fez. Apontou, lavou.

Viva!

6. NÃO SABEMOS MAIS USAR COPOS…

Com exceção dos países mais desenvolvidos como Hong Kong e Singapura, boa parte da Ásia sofre com o problema da qualidade da água. O que obriga até mesmo os locais a consumirem garrafas e mais garrafas de água mineral, barata e facilmente acessível por aqui.

O que nos leva a uma outra questão: com a presença onipresente de uma garrafinha ao lado, quem precisa de copo? Esses objetos frágeis, complicados e nada práticos, que precisam ser lavados constantemente (com água contaminada da torneira? De que adianta beber água mineral neles?) e serem estocados…

Moral da história: Nos tornamos experts em abrir os mais variados tipos de lacre de garrafas facilmente. Mas somos completamente incapazes de levar um copo à boca.

7. …NEM TALHERES

“Garfo e faca” não é exatamente uma dupla romântica aqui na Ásia. Estão mais para um amor platônico, onde só na nossa cabeça deveriam estar juntos.

Na vida real, onde existe um não existe o outro. Em geral, dê-se por contente ao ver um garfo e uma colher dividindo espaço no seu prato. Corta-se a carne com um deles, ou com a boca mesmo. Na melhor das hipóteses, com uma tesoura. Acredite, você se vira. E se não conseguir, ah, os palitinhos estão aí pra isso mesmo!

Reflexões de 1 Mês de Viagem – O Que Aprendemos?

Um mês fora do Brasil passou voando, mal deu pra sentir!
Mentira, deu sim.

Afinal, são 30 dias sem ouvir funk.
30 dias sem ver cracudo.
30 dias sem sinais da banalização da violência.
30 dias sem pagar preços absurdos pelas coisas.
30 dias sem privações de água ou de luz.
30 dias da mais absoluta… paz.

Quando tomamos a decisão de sair do país por um ano para viajar pelo mundo, ficamos ansiosos pelo aprendizado que iríamos obter com essa experiência. Só não imaginávamos que aprenderíamos tanta coisa em tão pouco tempo.

Reunimos aqui algumas das reflexões que tivemos nesse primeiro mês, pautadas em nossas observações cotidianas. Lá vai:

1) 99,9% DAS PESSOAS SÃO BOAS

Acostumados a viver em um país onde desconfia-se até da Polícia e da Igreja, foi complicado mudar nossa visão.

Esse é um discurso clichê e até meio hippie, confesso. Mas é a mais pura verdade: por onde andamos, temos conhecido gente maravilhosa, solícita, educada e, independente de classe social, íntegras e pacíficas.

Pessoas que não têm a menor obrigação de lhe prestar apoio algum, e ainda assim, moverão mundos e fundos para lhe auxiliar, sem esperar nada em troca a não ser um sorriso.

Sim, o 0,01% existe, e quando aparecer vai causar bastante stress. Mas no final das contas, seu número será tão desproporcional que logo será esquecido.

2) NOSSOS PROFESSORES ESTAVAM ERRADOS

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Como todos da nossa geração, aprendemos um monte de bobagens na escola. Entre elas, aquele velho discurso de que o Brasil alimenta o mundo, de que a Amazônia é um tesouro cobiçado pelas “nações imperialistas”, e de que lugar mais lindo que o Brasil não há: somos abençoados por Deus e bonitos por natureza.

Em primeiro lugar: o mundo pode viver muito bem sem soja e café, nossas grandes “contribuições” para a balança comercial.

E ao contrário do mundo que nos pintaram, desértico e sem verde, até agora temos visto paisagens naturais exuberantes, incrivelmente preservadas e com uma fauna e flora igual ou maior do que as brasileiras. Mesmo com a Amazônia e a Mata Atlântica, o Brasil não é exemplo pra ninguém: nossos índices de desmatamento são tão grandes que fazem vergonha até à China.

O que nos leva a acreditar que viver no Brasil cada vez mais se parece como viver em uma bolha.

3) O BRASIL NÃO TEM A MENOR RELEVÂNCIA NO CENÁRIO INTERNACIONAL

O Brasil já tentou várias vezes um assento no Conselho de Segurança da ONU, e nunca conseguiu. E nem vai, nunca. Quem se importa com a opinião do Brasil?

Mesmo com problemas internos gravíssimos, o Brasil acredita que tem condições de enviar ajuda humanitária ao Haiti, enquanto apoia regimes totalitários patéticos e suas ambições nucleares; dá legitimidade à ditaduras comunistas e ainda tenta fornecer conselhos inúteis ao mundo em reuniões onde somos educadamente ignorados pelos países sérios que possuem coisas mais importantes para por em pauta.

Se houvesse uma espécie de “Ranking de Países por Relevância”, dividiríamos a mesma posição com a… Jamaica! Todo mundo ama a Jamaica: o reggae, a maconha e a garra esportiva dos meninos do filme Jamaica Abaixo de Zero.

Eis o Brasil: Troque o Reggae pelo Samba, mantenha a maconha, e troque o esporte do filme pelo futebol. O Brasil é a Jamaica! Todo mundo ama o Brasil!

Se tem uma coisa que percebemos, é que a figura de Bob Marley é onipresente em todo o mundo, assim como a bandeira verde-e-amarela. Dada a sua vocação de ficar estampada nos chinelos e nas cangas, parece-me ser muito mais provável continuarmos a vê-la ainda por um bom tempo sob os pés e as bundas dos gringos, do que nos mastros das grandes convenções.

4) O CAOS SOCIAL BRASILEIRO CONSEGUIU ATINGIR A MAIOR DAS INSTITUIÇÕES: A FAMÍLIA.

Tão logo divulgamos nossa viagem, muitos vieram nos parabenizar, alertando-nos que aproveitássemos bastante esse tempo, porque “quando vier os filhos…”

Alguns chegaram até a nos relembrar os princípios básicos da contracepção, afinal, uma gravidez não planejada poderia ser “o fim da aventura”.

Enquanto isso, vamos observando como é o relacionamento de pais e filhos por onde vamos passando:

Nas trilhas que fizemos, mesmo em meio aos obstáculos encontramos pais carregando seus filhos dentro do mochilão. Em uma rua movimentada, uma mãe também carrega seu filho em uma espécie de bolsa de canguru, dando-lhe papinha enquanto fala com o celular na outra mão. Andando. Nada parece lhe atrapalhar.

Em uma outra praia, o pai surfista é acompanhado do filho, que tem no máximo cinco anos mas já carrega sua própria pranchinha, e não contente em encarar as ondas, vai seguindo o pai até a parte mais funda do mar. A irmãzinha, de idade aproximada, parece não ter tanto talento para o surf, mas com sua roupa térmica resolve aproveitar a oportunidade para praticar o nado, mergulhando e dando cambalhotas na água.

Crianças locais, peladinhas, se divertem na praia, enquanto algumas crianças estrangeiras, também nuas, rolam na areia, engolem água do mar, fazem castelos e brincam sem parar. Os pais estão relativamente por perto, alguns bem distraídos. E por onde quer que se olhe, o único perigo que parece atingir aquelas crianças é o risco de se queimarem muito com o sol.

Os exemplos não param. Por onde quer que se vá, não vemos uma criança sequer no colo. Nem mesmo bebês. Os pais dão um jeito de acoplá-los ao corpo, das mais diversas formas, e com eles seguem andando, correndo, pedalando e até de skate.

Por que não vemos isso no Brasil? Por que ter um filho em nosso país é como adquirir uma deficiência física, uma muleta que vai lhe obrigar a comprar um carro, trocar de casa, cultivar uma barriga e deixar de viver plenamente pelos próximos anos?

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Caramba, até os argentinos são felizes viajando com sua renca de filhos!

Somente fora do Brasil vimos que os filhos podem ser sim verdadeiros companheiros dos pais. Independentes da idade, não são estorvos nem empecilhos, mas sim bênçãos. Uma razão a mais para se divertir e querer sair de casa. No Brasil, a vinda de uma criança é quase sempre um atestado de óbito da vida social.

A que ponto chegamos? A quem queremos enganar, achando que a situação de insegurança e altíssimo custo de vida no Brasil é “normal”, e no final das contas acabar culpando esses pequenos anjinhos pela mudança radical de estilo de vida ao decidir criá-los nesse país?

Nossas crianças trocaram as brincadeiras nas ruas pelos videogames; os campinhos de futebol e a bicicleta pelo playground do condomínio de vigilância 24 horas. Felizmente, fora do Brasil (e das zonas de guerra), o tempo do medo ainda não chegou. As crianças continuam a se divertir livremente… e os pais também.

E isso nos fez até repensar nossas ideias. Sim, nós, que nunca cogitamos ter filhos, já que fomos a vida inteira condicionados a isso, agora começamos a gostar da ideia de ter alguns catarrentinhos no futuro.

Mas com uma condição: nossos filhos não terão RG nem CPF.

5. A CLASSE MÉDIA EMERGENTE É UM FENÔMENO GLOBAL

Esqueça o Lula, esqueça a Dilma. Se você hoje tem uma vida relativamente mais confortável do que há alguns anos, com maior acesso a bens de consumo e serviços, agradeça à China e as grandes corporações.

São estes os responsáveis por proporcionar ao mundo um maior acesso aos automóveis, eletrônicos, roupas e etc., utilizando-se dos últimos recursos naturais de um planeta doente para girar a economia e, dessa forma, alavancar lucros e, em menor escala, distribuir renda entre a população global através de contratos políticos que fomentam à facilitação do crédito e concessão de subsídios.

Crianças chinesas têm suas próprias Nikon profissionais. Taxistas indonésios dirigem Toyotas e Hilux em um trânsito louco cheio de Kawasakis. Adolescentes muçulmanas de véu e vestes simples compartilham fotos pelo iPad. Cada vez mais gente viaja de avião pelo mundo.

E você aí sem conseguir pegar o sinal da Vivo...

E você aí sem conseguir pegar o sinal da Vivo…

O governo brasileiro não é nem um pouco responsável por todo o avanço dos últimos anos na ampliação do acesso ao consumo ou até mesmo no combate à pobreza no Brasil. Nem sequer foi capaz de reduzir a alta carga tributária ou flexibilizar as leis trabalhistas que impõe um atraso vergonhoso em comparação aos outros países. Apenas surfou na onda do crescimento alheio e não produziu absolutamente nada.

A realidade é essa: o mundo todo avançou. Até mesmo as economias mundiais mais subsistenciais se fortaleceram, investindo em educação e infraestrutura. Já o Brasil… bem, garantimos a Copa do Mundo desse ano, não é mesmo?

6) VOCÊ É AQUILO QUE VOCÊ QUER SER

O que leva um indiano morador de uma favela, em um dos países mais miseráveis e populosos do mundo, sair de sua condição de extrema pobreza e virar um engenheiro bem-sucedido?

O que leva uma menina bonita, nascida na Europa e habituada aos maiores indicadores de alto IDH do mundo, a abusar das drogas e do álcool, se vestir como uma periguete e agir vergonhosamente nas ruas?

Analisando as duas situações distintas, e tantas outras que nos são demonstradas, só chegamos à uma conclusão: Você é aquilo que você quer ser.

O ambiente pouco importa, sua formação é só um detalhe e “destino” é pura invenção. Com um pouco de esforço e fé em Deus, se chega em qualquer lugar. E sem eles, as chances de não se chegar a lugar algum são imensas.

Se fôssemos aceitar o que a vida nos impôs, Carol e eu estaríamos vivendo em um dos países mais violentos e corruptos do mundo, infelizes com nossos empregos e endividados pelos próximos 35 anos atrás de um sonho que nunca foi nosso.

Simplesmente decidimos fazer diferente e ser o que sempre quisemos ser.

7) EXCETO PELA PROXIMIDADE DA FAMÍLIA E AMIGOS, NÃO HÁ MOTIVOS RACIONAIS PARA QUERER VOLTAR AO BRASIL

O mundo é um lugar incrível e cheio de oportunidades. As pessoas precisam se vestir, se alimentar, se locomover. Produtos e serviços precisam ser vendidos e atender as necessidades exigidas. Com alguma ideia em mente e algum capital no bolso, é possível sustentar-se em qualquer lugar de acordo com padrões de vida bem aceitáveis. Pra que se limitar?

Não somos monstros insensíveis. Temos família, amigos, e os amamos. Na verdade, morremos de saudades.

Mas mesmo durante esse pouco tempo que estamos fora do Brasil, já conseguimos perceber que a dor de ter de voltar vai ser bem maior do que a dor da distância. Não me entendam mal: hoje em dia, é possível manter a proximidade via Skype, Facebook, etc. Entretanto, ainda não é possível dar um CTRL+ALT+DEL na arma do bandido apontada para sua cabeça, tampouco diminuir os preços abusivos com o mouse ou desfazer a parte do seu dinheiro que é desviada para a corrupção.

Acredite, quando você tenta explicar o número de mortes violentas do Brasil para os estrangeiros, ou traduzir os termos “arrastão”, “saidinha de banco”, “sequestro relâmpago” e não conseguir ser compreendido, mesmo descrevendo exatamente os atos, é porque algo saiu muito errado com o seu país. Ele simplesmente… fracassou.

Desculpe, mas é isso que aprendemos até agora.

Hora de partir

Rio de Janeiro/São Paulo, noite de 26 a 27 de janeiro de 2014, Brasil.

Após nossa última despedida – um delicioso churrasco em família -, mal podíamos acreditar, mas era verdade: estava na hora de ir embora.”Como passou rápido, meu Deus!”, todos diziam. E quando percebemos, já estávamos no aeroporto embalando as mochilas.

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Carol despedida-se de seu irmão, cunhada, sobrinhos, avó e padrinho, enquanto eu aproveitava para ficar um pouco mais com meu pai, que trabalha na companhia aérea do nosso primeiro voo (Rio-Guarulhos).

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Ainda deu tempo de encontrar grandes amigos, Pedro e Diego, receber os últimos abraços e ganhar alguns mimos (o travesseiro de pescoço quebrou um galhão, obrigado!).

E então chega a hora do embarque e a coisa fica séria. É realmente a hora de partir. Os últimos abraços parecem doer mais. Difícil aceitar a distância daqui pra frente. Nossa querida família, nossos pequenos sobrinhos… Não poderemos vê-los por um bom tempo. Quem disse que seria fácil? Para cada escolha, uma renúncia. Temos que arcar com as consequências.

Vamos para a fila de entrada no avião. Ao nosso lado desde o check-in, meu pai vai nos acompanhando até o final na área restrita. Até o final mesmo. Quando o abracei no finger pensando que já não nos veríamos mais, adivinha quem aparece DENTRO do avião?

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Um último adeus, e agora sim – haja coração -, decolamos.

Chega o fim da ponte aérea e ao descer da aeronave, um ônibus nos espera para levar-nos até o terminal correto. Chegando lá, vamos pegar a mochila na esteira de bagagens. Não queria despachar nada, principalmente em uma viagem por três continentes, mas é o jeito, já que a pedido de nossa anfitriã em Hong Kong, estamos levando um estoque de doce de leite em embalagens de vidro.

A mochila demora a chegar e vamos ficando apreensivos. Perderíamos a bagagem logo na primeira parada? Ela demora, mas enfim chega. Tempo de seguir em frente pela paisagem escura e medonha de Guarulhos – esperávamos mais do aeroporto mais movimentado do país.

Durante o check-in para o próximo voo, uma pequena surpresa: o atendente da South African Airways exigiu-nos uma passagem de volta ao Brasil. Expliquei a ele sobre nossa volta ao mundo, apresentei nossos bilhetes de saída de Hong Kong para Bali e depois Singapura, mas ele era irredutível. Teve de sair para consultar o gerente – e a gente morrendo de medo de ser “deportado” ainda em São Paulo…

Felizmente ele volta e reconhece a legitimidade de nossa viagem, liberando nossos cartões de embarque em seguida. Precisamos aqui fazer uma menção honrosa aos nossos intestinos, que se comportaram muito bem, mesmo diante de tanta pressão.

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A cada passo, mais perto ficávamos de cumprir nosso objetivo. Finalmente entramos no avião, um robusto Airbus 300-340 de formatação 2x4x2. Basicamente, um treco gigante, relativamente confortável e repleto de Amarula.

O bichão decolou, e então oficialmente estávamos fora do Brasil! Próxima parada: África do Sul!
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A(s) Despedida(s)

Tão logo decidimos a data dessa viagem, soubemos que uma de nossas maiores dificuldades seria se despedir de tanta gente: familiares, amigos, colegas de trabalho…. gente querida, espalhada por todo canto. Foi necessária uma verdadeira operação de logística para dar conta de tantos bye bye, so long, farewell.

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1526428_568474396573379_1386069936_nViajamos para perto e para longe, fomos à festas, almoços, jantares… Toda ocasião que nos permitisse encontrar pessoas importantes para nós era uma oportunidade! E não houve distância, trânsito, clima ruim ou nada que nos impedisse de ir ao encontro de todos.

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Durante todo esse tempo, sempre fomos recebidos como celebridades (haha) e chegaram até ao ponto de organizarem festas de despedida pra gente! Não merecíamos tanto.

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Pouco a pouco, estamos descobrindo que não é o lugar onde nascemos que nos define, mas sim as pessoas que conhecemos e todas as experiências que compartilhamos com elas. Eis a nossa pátria: nossos familiares e amigos, dos mais próximos aos mais distantes. É o rosto de cada um de vocês que gostaríamos de ver estampados em nossos passaportes.

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A todos, recebam o nosso carinho e muito obrigado! Sentiremos saudades!

Família e amigos reunidos

PS: Falta muuuuuita foto ainda para postar, se você tiver uma, por favor não deixe de nos passar!

A imagem que a gente leva do Brasil

Enquanto escrevo, Carol prepara delicadamente meu banho: após acionar uma barulhenta bomba de água, ela derrama o líquido de aspecto esquisito que sai da mangueira em um balde até enchê-lo completamente. Aí então eu pego o recipiente, levo até o banheiro, e em posse de uma caneca começo a tomar meu banho em etapas. Preciso lavar-me com cuidado, reaproveitando a água que escorre de mim e vai caindo em outro balde – esta será usada para a descarga do vaso sanitário.

Não, ainda não chegamos no Laos, ou no Camboja, muito menos no Vietnã. Esse é apenas uma das realidades que enfrentamos neste último mês na Cidade Maravilhosa.

2014 começou de forma, digamos, curiosa. Fomos para a casa de parentes, em outro ponto da cidade. Ainda estavam organizando a ceia de ano novo na mesa quando o serviço de luz foi interrompido. O tempo foi passando, e graças ao calor insuportável típico do verão carioca, os refrigerantes foram esquentando, os doces ficando moles e a comida cada vez menos interessante: todos só queriam água, água e água. Felizmente esta ainda não havia faltado. Quando criança, minha avó sempre me ninava cantando: “Rio de Janeiro / cidade que reluz / de dia falta água / de noite falta luz”. Ele nunca esteve tão certa.

Os desejos de fim de ano (todos pedindo para que a luz voltasse, só isso) infelizmente não foram atendidos. Mas à meia-noite, o som dos fogos iluminou o céu e nos reacendeu a esperança. Fomos para fora contemplar o espetáculo de pirotecnia – quer dizer, bem que tentamos. Um barulho conhecido dos cariocas, estampido oco e brutal, ecoa no ambiente e mistura-se ao cortejo: TIROS. Hora de voltar correndo para uma área abrigada, proteger as crianças e tentar salvar o pouco de dignidade que ainda nos resta. A poucos quilômetros dali, em Copacabana, algumas pessoas não tiveram a mesma sorte e foram alvejadas. Em todo o Brasil, muitos passavam a virada de ano de maneira igual ou pior que a nossa.

Olhando para a imensa escuridão à minha frente, iluminada apenas por alguns pequenos pontos luminosos nos morros, cheguei à uma terrível conclusão. Se me perguntassem, naquele momento, o que era o Brasil, eu não pensaria duas vezes em responder:

O Brasil é um lugar que vive nas trevas. Um lugar onde os serviços mais básicos são negados à sua população. Um lugar onde vive-se com medo: sai-se de casa como quem vai à guerra.

E como para confirmar minha teoria, todos os dias de janeiro seguiram-se nos mesmos padrões: ora faltava água, ora faltava luz, em todos os lugares que íamos. Isso sem contar as experiências exóticas do cotidiano que a gente se submete a passar, como por exemplo, pegar um ônibus com seu pai e um passageiro ao lado não só preparar um baseado, bem ao seu lado, como também oferecê-lo a você e ao seu progenitor…

Hmpf, e a gente achando que vai ver coisas bizarras por aí.

Contando as horas…

Há 2 anos e meio, quando casamos, esses eram nossos bonequinhos de bolo:

Bonequinhos de bicicleta em cima do bolo

Até que fomos modestos.

Nem em nossos maiores sonhos imaginávamos um dia dar a volta ao mundo.

Parece que foi ontem que nos conhecemos e agora já estamos diante do maior desafio de nossas vidas! É hora de ir se despedindo dos familiares e amigos, arrumar as mochilas e comer os últimos copos de açaí…

Dia 27 está chegando!