Ahaa, Uhuu, Socorro, Estamos em Kuala Lumpur!

40º Dia – Kuala Lumpur, 8 de Março de 2014.

Após uma longa noite de viagem de trem, enfim chegamos à capital da Malásia! Começamos com o pé esquerdo: nosso anfitrião do Couchsurfing não havia passado o endereço, estávamos sem guias da cidade e não sabíamos para onde ir. Se tem uma coisa chata em uma viagem de volta ao mundo é a leve sensação de estar perdido… e nós estávamos totalmente!

Para nossa sorte, encontramos uma tomada disponível e conseguimos obter algumas informações pelo netbook sobre a cidade. Logo definimos o bairro de Chinatown como nossa parada, pois ali localizam-se as acomodações mais baratas de “KL“, como chamam os locais. Estávamos na estação ferroviária central, e de lá bastou pegarmos um monotrilho e em poucos minutos estávamos no bairro chinês.

Como é de praxe, camelôs e barraquinhas de comida espalhavam-se pelo ambiente. Chinatowns são sempre iguais, com honrosa exceção para a de Singapura, que ao menos é limpa.

O lugar é bem localizado, próximo ao centro, e talvez por isso é apinhado de gente para todos os lados. E quando se está com um mochilão nas costas, digamos que andar entre multidões não seja uma experiência das mais agradáveis…

Apesar de ainda ser de manhã, o calor era insuportável. Assim seriam todos os dias. Chegamos em uma época onde não chovia há mais de 3 meses na cidade. Some isso a um elevado índice de poluição e você tem como resultado uma qualidade de ar péssima – mas que pelo menos cria belas imagens como essa: o sol vira uma bola de fogo no céu poluído.

Com algum esforço, encontramos um cafofo obscuro para passar a noite. Era o Backpacker’s Travellers Inn, lugarzinho bem mais ou menos, uma espécie de hostel com crise de identidade, com banheiros compartilhados e quartos privativos sem janelas que mais pareciam uma solitária. Mas por 40 RM (U$12), não dava pra reclamar muito. Apesar do aspecto medonho de filme de terror, até que o lugar era simpático e acabamos gostando no final.

Cumprimos o ritual de sempre antes de sairmos para explorar a cidade: descarregamos as mochilas, espalhamos nossas roupas pelo quarto e eu, é claro, tratei de registrar nossa passagem pelo local rabiscando o verso do quadro pendurado na parede. É mais um dos hábitos estranhos que adquiri nessa viagem. Aliás, se um dia você for ao Sudeste Asiático, dê uma olhada atrás da moldura do quadro ou espelho geralmente presente nos quartos: Se tiver um coraçãozinho desenhado escrito “Wendell e Carol”, com a data e o endereço deste blog, você saberá que passamos por lá. 🙂

Andar pelas ruas de Kuala Lumpur é um martírio. O trânsito é infernal e “calçada” é um conceito ainda inexistente por lá. Anda-se no meio dos carros, respirando fumaça e desviando dos retrovisores.

O transporte público sobre trilhos da cidade é realmente funcional, mas a profusão de linhas de monotrilho formando “minhocões” na paisagem chega a ser agressiva. Juntamente com a publicidade exagerada e quase sempre brilhante, Kuala Lumpur parece uma espécie de São Paulo futurística pós-hecatombe.

Aliás, taí uma definição que desde cedo nos fez pensar. Toda a sujeira e a aparente sensação de insegurança dessa metrópole nos fez pensar em um lugar que conhecemos muito bem… E digo mais: Se não fosse pelas mesquitas e monumentos islâmicos espalhados em cada esquina, Kuala Lumpur poderia ser facilmente confundida com qualquer grande cidade brasileira.

Sem saber mais se estávamos em Rio Comprido ou em Kuala Lumpur, no Brás ou na Ásia, decidimos voltar correndo pra “casa” – é assim que, sem querer, acabamos chamando as acomodações onde pernoitamos. Já estávamos fartos da República Federativa Islâmica do Brasil, ou melhor, Malásia.

À tardinha, com fome, resolvemos dar mais uma chance para a rua e fomos em busca de algo para comer. E mais uma vez fomos surpreendidos pela inaptidão dos restaurantes locais em informarem os preços. A maioria funcionavam como self-service, mas eram incapazes de explicar o modus operandi dos preços. “Comida a quilo” é uma invenção tipicamente brasileira, sem balança e muito menos sem funcionários que pudessem falar inglês, realmente não sabíamos como… comer! Se você souber como funciona um self-service da Malásia, por favor, explique-nos.

Mesmo sendo um país relativamente barato, o medo de ser sobretaxado pela fato de ser turista é algo que quase sempre ronda nossas cabeças – apesar de, até hoje, sempre termos sido respeitados nessa questão. Preferimos não arriscar. Após discussões acaloradas e stress de ambos os lados, optamos pelos óbvios fast foods da região. No Sudeste Asiático, Mc Donald’s, KFCs e Burguer Kings sempre serão opções baratas de refeição, apesar de nada tradicionais. A graça daqui era ver nas embalagem dos sanduíches o símbolo de “Halal”, como é conhecido o método muçulmano de cozinhar de acordo com os preceitos do Alcorão.

Contanto que lavassem as mãos antes de pegar nos hambúrgueres, já estávamos felizes…

Felizmente encontramos opções locais de lanches que nos fizeram ficar menos aborrecidos com a culinária malaia. Arranjamos um pastelzinho delicioso de ovo com batata doce ao curry (!), acompanhado de um caldo de cana geladíssimo.

Ainda assim, estava difícil acomodar-se ao estilo de vida da “cidade grande”. Tínhamos vindo de 24 excelentes dias de descanso em Bali, e logo depois fomos introduzidos mansamente à super qualidade de vida de Singapura. Encarar uma Malásia, com problemas e mazelas tão conhecidos da gente (mas que já tínhamos quase esquecido…), mexeu como nossos ânimos. Nunca brigamos tanto. Nunca gritamos tanto.

Aliás, se tem uma coisa boa na Malásia em comparação com o Brasil é que lá ninguém fala português. O que é ótimo para xingar bem alto – o país, o clima, o trânsito, o cônjuge, tanto faz – sem ser notado nem repreendido. Como se não bastasse toda nossa dificuldade de adaptação, ainda fomos premiados no dia de nossa chegada com a coincidência do início do mistério do voo MH370. Maravilha: Estávamos em um país que misturava desordem, regresso e consternação por uma possível tragédia.

Decididos a não deixar que todas as chateações arruinassem com nosso dia, fomos em busca do símbolo de modernidade de Kuala Lumpur: as Petronas Towers, maiores torres gêmeas do mundo!

Os prédios são inegavelmente bonitos, mas chega a ser até destoante colocá-los em uma cidade tão… feia. Por que verdade seja dita: Com exceção dessas torres, não há em KL nenhum outro edifício digno de nota.

Conforme vai anoitecendo, os arranha-céus vão ficando cada vez mais lindos, graças à iluminação de bom gosto.

O mesmo não pode ser dito do show de água e luzes que tentaram fazer na pracinha ao redor… bem sem graça, nem se compara ao que vimos em Macau. Além do mais, não tem nada de autêntico: a música de fundo é um daqueles sons pop turcos da trilha sonora de alguma novela da Glória Perez. Ficou artificial demais, para dizer o mínimo.

Em nosso segundo dia no país, a Malásia não havia conseguido nos conquistar. Kuala Lumpur, sua capital, muito menos. Felizmente ainda tínhamos algum tempo para explorar o país e ter melhores experiências…

Anúncios

Malásia, a Ásia do Mal? – Primeiras Impressões

39º Dia – Johor Bahru, 7 de Março de 2014.

Ainda em Singapura, tivemos a oportunidade de ficar hospedados via Couchsurfing na casa de uma família típica de Singapura. Ou talvez nem tão típica assim – o pai, Mr. Loke, era um senhor que já deu várias voltas ao mundo a trabalho (“É um saco ter que trocar de passaporte todo ano…”) e chegou a visitar o Brasil algumas vezes. Feliz por ter brasileiros em casa, principalmente após lhe termos feito relembrar o sabor do arroz com feijão e até uma caipirinha tosca que arriscamos, nosso amigo resolveu atravessar de carro todo o território de Singapura e, com a gente de carona, atravessar a fronteira da Malásia!

Falando assim até parece uma road trip daquelas, mas a verdade é que Singapura tem menos da metade do tamanho da cidade de São Paulo. Ou seja, em pouco mais de meia-hora estávamos carimbando nossos passaportes e entrando em território malaio!

A diferença entre os dois países é brutal. Singapura é rica, moderna e organizada nos mínimos detalhes, mas a primeira impressão que a Malásia nos causou foi totalmente o contrário disso! Assim que atravessamos a causeway, vimos como a cidade fronteiriça de Johor Bahru era suja, pichada, cheia de cortiços, poluída e com um aspecto terrível de abandonada. Entramos em um shopping para comprar água e o lugar fedia a durian. Logo entendemos o porquê do país vizinho ter proibido o consumo dessa fruta em locais fechados… Aliás, entendemos boa parte das proibições de Singapura. Tudo na Malásia desde já aparentava ser desorganizado e sem lei.

Nossa travessia por terra entre os dois países tinha um propósito: era dessa primeira cidade que pegaríamos um trem noturno de longa distância e iríamos para Kuala Lumpur. Ao longo dos próximos textos ainda falaremos muito mal da Malásia, mas uma coisa precisamos admitir: o sistema de transportes ferroviário do país realmente funciona, e é admirável a facilidade de cruzar o país de uma ponta a outra somente usando trens.

O problema de ter pego a carona com Mr. Loke é que acabamos chegando cedo demais na Malásia. Ainda não era hora do almoço e já estávamos lá, mas nosso trem só partiria de madrugada. Foi aí então que nosso simpático amigo resolveu fazer um tour com a gente pelas “maravilhas” de uma cidade fronteiriça no meio do nada como aquela. Shoppings duty free, cassinos, inferninhos bizarros frequentados por mafiosos, restaurantes de qualidade duvidosa e a presença de imigrantes indianos que sempre eram apresentados como “amigos”, apesar da clara falta de intimidade e nítida relação de prestação de serviços entre as partes.

Era engraçado ver um cidadão de Singapura tão à vontade naquele lugar. E foi observando que percebemos que a relação entre o povo singapuriano com a Malásia é bem parecida com a que os brasileiros têm com o Paraguai. Assim como fazemos em nosso vizinho mais pobre, é aqui que o pessoal de Singapura vem abastecer o carro com combustível mais barato, comprar bugigangas, fazer um passeio de fim de semana, etc. Ficávamos cheios de medo ao atravessar as ruas movimentas de trânsito frenético da cidade, sem sinais ou faixas de pedestre, mas Mr. Loke, ao contrário, atravessava no meio da rua devagar, sorrindo e acenando… Quando em Singapura ele teria a oportunidade de “desafiar o sistema” desse jeito?

Algumas horas depois, já nem ligávamos mais quando Mr. Loke – após lavar o carro, cortar o cabelo e fazer algumas compras (“Aqui é tudo tão mais barato que Singapura!”) – nos levava a algum lugar desconhecido e apresentava mais alguns de seus “amigos”. No fim do dia, ele ainda pagou nossa janta e até parou em uma farmácia para comprar um xarope anti-tosse (!) pra gente, haja vista a tosse irritante que nos acompanhou durante nossa estadia.

O homem, o mito.

No final das contas, acabamos tendo um dia mais divertido do que o esperado e enfim estávamos prontos para encarar as longas horas de trem que nos separavam da capital da Malásia.

Escolhemos o vagão da segunda classe, e até que a viagem não foi das piores. O assentos não reclinavam, mas eram confortáveis. Chegamos no início da manhã em Kuala Lumpur, em seu gigante terminal ferroviário. Essa cidade ainda nos reservaria boas surpresas… Ou talvez nem tão boas assim.

Singapura – (Des)complicada e Perfeitinha

36º Dia – 03 de Março de 2014, Singapura.

Nossa chegada em Singapura não foi a das melhores.

Durante a fase de pouso do voo, comecei a sentir um desconforto que logo virou uma forte dor de ouvido. E de repente eu estava surdo, era isso. Carol falava comigo e eu não ouvia nada, para total desespero dela, que a essa hora já estava chorando. E eu também, de dor. Quase desmaiando, balbuciei um inútil pedido de ajuda à comissária: um remédio, uma máscara de ar, um tiro na cabeça, qualquer coisa que diminuísse aquela sensação perfurante nos meus tímpanos. Em um voo de companhia de baixo-custo onde até a água é paga, a aeromoça não fez muita coisa: apenas me deu um sorriso amarelo como resposta. Eu que me danasse, pronto.

Já em terra, fui andando meio zonzo pelo saguão do Singapore Changi Airport, com dor de cabeça e a audição bem prejudicada. Se continuássemos daquele jeito a imigração iria ser bem interessante: Carol sem falar inglês e eu sem poder ouvir. Uma muda e um surdo, que dupla!

Precisava de um banheiro, lavar a cara, me olhar no espelho e tentar ver que dentro de tanta dor ainda havia uma pessoa. E então, surpreendentemente algo dentro daquele toilet começou a me fazer sentir melhor. Talvez o cheiro de limpeza, a iluminação de bom gosto ou a decoração com uma mini cachoeira (!) próxima às pias, não sei. Fato é que senti um dolorido “PLOFT” no ouvido esquerdo, e em seguida um “PLOC” no direito. Machucou, mas pelo menos havia recuperado uns 20% da minha audição. O suficiente para identificar o som ambiente, baixinho: uma versão instrumental de Águas de Março, de Tom Jobim. Como essa música combina com um banheiro!

Era o banheiro mais agradável que eu já tinha pisado. Na saída, uma tela touchscreen pede para que eu lhe dê uma nota de avaliação. O olhar do faxineiro é intimidador. Ele não tem cara de coitadinho, nem de que precisa do meu voto. Segurando sua vassoura como o pastor que segura seu cajado ou o ninja que desembainha sua espada, ele telepaticamente parece me dizer: “Brasileiro idiota. Você acha que é capaz de deixar um banheiro brilhando como esse? Você acha que é digno de viver em Singapura como eu?”.

Derrotado, não me resta escolha e pressiono o rostinho feliz. Votei em “Excellent”. Duas vezes.

Cada um escolhe o melhor método de se recuperar de um voo terrível como aquele. Carol, por exemplo, aproveita a cadeira de massagens gratuita. Singapura já nos mimava sem que nem mesmo tivéssemos nossos passaportes carimbados.

A Imigração é rápida e eficiente. Sem perguntar para onde vamos ou pedir pelo bilhete de saída (que não tínhamos), somos liberados. Não sem antes ganhar uma balinha personalizada do aeroporto. Welcome to Singapore!

Como qualquer país decente, há um metrô que sai do aeroporto em direção a todos os cantos da cidade. É interessante notar os tipos que vamos encontrando: indianos, árabes, chineses e ocidentais. Há mais diversidade étnica em um vagão do MRT de Singapura do que em toda São Paulo.

Com o dia amanhecendo, vamos olhando pelas janelas do metrô e nos surpreendendo com a paisagem: Ao contrário de Hong Kong, não existem tantos prédios por aqui. Casas e prédios “normais” dividem harmoniosamente o espaço entre ruas arborizadas. Tudo dá um ar de organização, mas não de riqueza. Singapura é um dos países com a maior concentração de milionários do mundo, e era muito provável que alguns deles estivessem ali conosco naquele veículo. Esse é um país rico que não transparece ostentação, mas sim frugalidade.

Propaganda do metrô anunciando descontos para aqueles que embarcarem mais cedo: – “Eu saio para trabalhar cedo e poupo dinheiro!” – “Eu começo a trabalhar mais cedo ainda e posso sair cedo do escritório para comprar mais!”

Mesmo após uma noite inteira de trabalho, nossa anfitriã vai nos buscar na estação. Vanessa é a segunda geração de uma família singapuriana, o que é algo bem raro, já que esse ainda é um país jovem e com uma história bem recente. A maioria dos que ali vivem são imigrantes. Tivemos a sorte de nos imergirmos totalmente em uma cultura a partir da visão dos locais. Devidamente alojados, é hora de partir para o centro e nos depararmos com o urbanismo da cidade-nação.

Invista pesado em transporte público e restrinja a compra de carros para aqueles que possam arcar com os altos impostos e mais U$70.000 de licença para dirigir. Eis a receita da cidade onde congestionamentos no trânsito simplesmente NÃO EXISTEM.

Começamos nossas andanças pela Marina Bay, região com os mais famosos e bonitos prédios.

O lugar é lindo e certamente tem uma das vistas mais privilegiadas da cidade. Mas precisava mesmo colocarem tantas espreguiçadeiras no caminho? Ainda cansados da viagem de avião, não resistimos a tentação e dormimos umas duas horas por ali, deixando a mochila no chão mesmo. Desnecessário dizer que, ao acordar, ela encontrava-se no mesmo lugar.

Teríamos dormido bem se não fosse o sol forte do meio-dia, que começou a nos torrar vivos. Singapura tem um clima tropical e está localizada praticamente em cima da linha do Equador. Em outras palavras: faz calor pra caramba!

Fugimos de lá através de uma das modernosas passarelas do local…

…Hora com vista para o imponente Marina Bay Sands, o famoso prédio com uma piscina “sem fim” no topo…

…e também a famosa roda-gigante, que se move tão lentamente que até parece estar parada.

O lugar é de tirar o fôlego, excelente para tirar algumas boas fotos e ir entrando no clima de Singapura. Vamos seguindo em frente e ficando de boca aberta com o bom gosto da arquitetura desse lugar.

Se perder em Singapura – se é que isso é possível em uma cidade tão pequena – é um prazer. As ruas são limpíssimas, e chama a atenção a harmonia entre o verde e o concreto.

Seguimos pela Orchard Road, famosa rua repleta de shoppings da região.

Entrar nos shoppings é algo que vamos fazendo frequentemente conforme vamos andando pela rua. Não tanto pela vontade de comprar alguma coisa, mas sim para aproveitar os potentíssimos ar-condicionados e fugir do calor do mundo real.

Acabamos esbarrando na rua com uma simpática barraquinha. Hora e clima perfeito para experimentar por apenas SGD $1 (U$0,80) uma iguaria daqui: Hambúrguer de sorvete!

O negócio é bem simples – basicamente um pão de forma e uma fatia de sorvete cortada na hora -, mas é o lanche perfeito para aliviar o calor da tarde a um preço camarada. Aliás, como em breve iríamos perceber, apesar de Singapura ser considerada como um dos lugares mais caros do mundo para se viver, pelo menos a alimentação tende a ser bem barata – mais do que o Brasil, até.

Seguimos nossa caminhada até chegar ao Rio Singapura, que apesar de não ser o rio mais limpo do mundo, tem uns arredores muito bem cuidados, com diversos restaurantes, monumentos e atividades que atraem boa parte da população para passar por lá um fim de tarde agradável.

Se pararmos para pensar, Singapura só veio a ser planejada e construída conforme conhecemos de uns 30 anos pra cá. Antes disso, era apenas uma ilha cheia de mato que não interessava a Malásia, antiga proprietária das terras.

De pântano sujo a um dos países mais desenvolvidos e urbanizados do mundo, levaram pouco mais de 30 anos. O que fizemos nos últimos 500?

Explorar um pouco de sua história através de pontes antigas e esculturas que transformam a cidade em um museu ao ar livre é encantador, nos remetendo aos tempos onde sua principal fonte de renda era a pesca e seus maiores prédios eram casas de palafitas.

Perto dali, encerramos nosso primeiro dia em um encontro com o Merlion, cabeça de leão em corpo de peixe, símbolo nacional que sintetiza a prosperidade do país:

Tudo é muito próximo desse lado da cidade, e é possível ver a roda gigante e os prédios Marina Bay Sands em conjunto com a escultura-chafariz.

Singapura nos passou uma excelente primeira impressão em nosso início de jornada. Seriam apenas 4 dias por lá, mas o suficiente para conhecer suas particularidades e compreender um pouco mais desse Estado-nação.

Com universidades na lista das melhores do mundo, transporte público super eficiente e alto Índice de Desenvolvimento Humano, conheceríamos nos próximos dias os lados menos modernos e mais tradicionais (e porque não dizer, divertidos?) de Singapura.

O Dia que demos um Golpe em um Golpista

23º dia – Kuta/Padang Bai, 19 de Fevereiro de 2014, Indonésia.

Ser brasileiro é ruim, mas é bom. Entenda:

Estávamos precisando trocar alguns dólares, já que iríamos passar uma semana em uma ilha sem caixa automático. Por aqui existe uma casa de câmbio em cada esquina, e entre elas, vários pequenos estabelecimentos que também trocam dinheiro, geralmente à uma taxa ligeiramente melhor do que os lugares oficiais. Essa atividade não chega a ser ilegal, é apenas informal mesmo, já que não há controle e nem emissão de recibo. Como estávamos atrasados para pegar um ônibus, resolvemos ir trocar em um estabelecimento desses.

Um hindu com jeitão de indiano apareceu para nos receber, perguntando quanto precisaríamos trocar. Fez uns cálculos e mostrou-nos o valor da conversão. O Sudeste Asiático, apesar de ser um lugar pacífico, é conhecido por ser o lar de diversos golpes contra turistas, e maquiar cálculos de conversão usando calculadoras pré-programadas é um deles. Mas nós também havíamos feito nossos próprios cálculos no celular e vimos que o valor batia, ou seja, não estávamos sendo roubados.

Estávamos trocando U$100, o que corresponderia a Rp. 1.200.000 (um milhão e duzentas mil rúpias). Ele pediu desculpas por só ter notas pequenas, de 20.000 rúpias, e logo foi começando a contar. Eu, sempre atento, acompanhava a contagem dele, e depois pegava o dinheiro na mão e fazia minha própria contagem novamente. Seguiu-se o mesmo procedimento por várias vezes seguidas, até que todas as notas formassem um maço bem grande no balcão.

O valor estava certo e tudo parecia normal, mas ao terminarmos de contar ele resolveu “juntar” o dinheiro espalhado na mesa. Foi tudo MUITO RÁPIDO, ele fez um vuuupt, juntou tudo na mão e me deu. E antes que fizéssemos menção de contar de novo, malandramente ele avisou que era pra “guardar logo o dinheiro na carteira, por que a rua tá cheia de gente”, como se os índices de roubo na Indonésia fossem parecidos com os do Brasil…

Caí na ladainha dele, botei o dinheiro na moneybelt, agradeci e saí. Mas tanto eu quanto a Carol ficamos com a sensação que o movimento dele ao juntar o dinheiro foi muito rápido, muito estranho. Resolvemos contar o dinheiro novamente. E para nossa surpresa, ao invés de 1.200.000 rúpias, haviam somente 800.000 rúpias. O malandrão havia nos surrupiado 400.000 rúpias (+-U$35) num PASSE DE MÁGICA. Vapt, vupt, simples assim.

Pelo menos o cara era talentoso.

Fiquei bem chateado e resolvi passar em frente à loja dele. Não queria briga nem confusão, apenas queria chamá-lo de ladrão. Juro, era só isso que eu ia fazer. Mas assim que eu voltei e encarei o sujeito, ele SE CAGOU DE MEDO. Fez uma cara de choro, foi dando uns passos para trás. Verdade seja dita: os malandros aqui não são como os malandros brasileiros. Os daqui não são violentos, pelo contrário, são verdadeiros bebês chorões, covardes, cheios de medo à primeira menção da palavra “polícia”.

Não existe impunidade em um país com pena de morte…

Percebendo que eu tinha o controle da situação, fui me aproximando lentamente do balcão, e com a cara mais cínica que pude fazer, falei: “Belo truque, buddy. Você é mágico? Legal! Me ensina a fazer isso aí?”

Ele ficou gaguejando, tirou umas notas de 50.000 rúpias e jogou no balcão, implorando I’m sorry, I’m sorry. Peguei as notas satisfeito e fui indo embora… até notar que o cara só havia me dado 4 notas de 50.000, ou seja, ainda faltavam 200.000 rúpias! O bonitão estava querendo me fazer de otário pela segunda vez.

Aí eu não aguentei… voltei de novo, com mais cara de macho ainda (e ele se borrando, todo acuado), e comecei a falar todos os impropérios em bahasa e inglês que sei. “Você é o Mr. M? É o David Cooperfield? Devolve o meu dinheiro A-G-O-R-A, ou eu chamo a polícia, seu ladrãozinho!”

Reconstituição fiel da cena

Reconstituição fiel da cena

Ele ainda tentou argumentar, mas continuei firme: “Rapaz, você vai para o inferno dos hindus! Vishnu vai pegar no teu pé, você vai pegar um karma bem grande e vai reencarnar numa barata!!!”

O pior é que eu estava em um tom super sério, falando bem alto. Hindus têm horror a isso. Existe algo na cultura deles chamado “perder a face”, que é sinônimo de perder a honra através da vergonha pública. E nessa hora, já havia um monte de gente por perto acompanhando a discussão. Até colegas que trabalhavam com ele, reprovando completamente a sua conduta.

Ele pegou de volta a minha nota de U$100 e fez que ia devolvê-la. Fui pegar e o bonitão falou: “não, meu dinheiro primeiro”. Aí eu falei mais abobrinhas ainda: “Você tá achando que eu sou mágico que nem você? Rapaz, no meu país a gente tortura até a morte pessoas do seu tipo! Eu quero o meu dinheiro, pode devolver agora!”.

Nesse meio tempo, dei ouvidos ao diabinho com sotaque carioca do lado da minha cabeça, que disse: “Pô, esse cara tentou te roubar 400 mil rúpias, agora tu vai devolver tudo pra ele, pegar teu dinheiro e vai ficar tudo por isso mesmo? Que lição ele vai aprender disso, rapá?”

Então, enquanto ainda discutíamos, comecei a contar o dinheiro na frente dele da forma mais completamente zoneada possível, e sem que ele percebesse, escondi 100.000 rúpias (+-U$10) no meu bolso…

Sim, dei o golpe no golpista. Sim, isso é feio, muito feio.
Mas poxa, ele mereceu.

Nem terminei de fingir que contava, ele se deu por vencido e tirei de volta a nota de dólar da mão dele. Devolvi as rúpias sobre o balcão da forma mais estúpida possível e mandei um “se vira!”.

Tão logo estávamos fora da loja, saímos apressados atrás de uma casa de câmbio oficial, trocamos nosso dinheiro e fomos embora. Não sem antes nos sentirmos um pouco Bonnie e Clyde, correndo como loucos nos becos e quebradas de Bali, achando que poderíamos estar sendo seguidos.

O trambiqueiro tentou nos dar um golpe e roubar 400.000 rúpias, perdeu tudo e ainda saiu no prejuízo de 100.000!

Ao menos ele aprendeu uma grande lição: nunca roubar… brasileiros!

PS: Sabemos que isso tudo é errado, e ao contrário do que possa parecer, não nos orgulhamos nem um pouco. Tanto que logo nos desfizemos desse dinheiro, distribuindo-o entre esmolas para alguns moradores de rua – que ficaram muito felizes ao recebê-los, aliás.

Afinal, sei lá, não queremos reencarnar em uma barata 🙂

Altas Confusões em Hong Kong

2º Dia – Kowloon, 28 e 29 de janeiro de 2014, Hong Kong.

O jetlag ainda batia forte, nos deixando completamente zonzos. Estávamos grogues, era isso. E nem foi culpa da Amarula. O chão parecia tremer, a boca estava seca e os olhos ardiam.

Sorte nossa que se locomover por Hong Kong não é só fácil: é ridiculamente fácil. Onde quer que se esteja, sempre haverá pelo menos uma estação de metrô por perto, um terminal de ônibus, linhas auxiliares de minivans e é claro, táxis.

Fomos para o apartamento da nossa anfitriã que conhecemos pelo Couchsurfing. Ela mora em Kowloon, um distrito ligeiramente mais afastado de HK Island, o centro da cidade. Mas nem por isso o lugar é um “subúrbio”: a verticalização é expressiva, e estávamos desde já surpresos pelo aspecto de metrópole em todo o lugar que passamos. Parece que o “centro” nunca acaba. Não há casas em Hong Kong, somente prédios, prédios e mais prédios. Mc Donalds e Shoppings estão espalhados por todas as esquinas.

Os edifícios residenciais por aqui são curiosos – e não é só por serem mais altos do que a média. Muitos são construídos por cima dos morros, sendo necessária a existência de elevadores nas ruas para levar até a entrada do prédio! Com tantos mercados e shoppings na vizinhança, às vezes até mesmo em seu interior, os condomínios podem ser considerados quase como cidades independentes.

Nossa amiga não estaria em casa e avisou-nos com antecedência que deixaria as chaves debaixo do tapete. Achamos aquilo incrível, uma excelente introdução aos modos diferentes de pensar de cada cultura. Mas ao abrir a porta, que surpresa!

Não foi só o tamanho do apartamento que nos chamou a atenção, minúsculo até mesmo para os padrões de Hong Kong. É que o lugar estava muito sujo. Sujo não, imundo! Um cheiro forte de fritura e chulé misturados. Havia pouquíssima mobília, basicamente um sofá, uma mesa e um armário, todos bem velhos. Lixos aleatórios jogados para todo lado: talheres usados no chão, sacos de batata debaixo do sofá (!), colchonetes encardidos, emoldurados por um teto e paredes mofadas.

Isso sem contar a cozinha, com a louça e o fogão mais fétidos que já vimos. Havia comida estragada criando bichos, e o banheiro, bom… é necessário mesmo entrar nessa parte? Digamos que uma pia entupida com água suja de cuspe e parada há dias é o que havia de menos pior por ali.

Já vi cracolândias mais limpas e organizadas do que aquele lugar. Seria a hora de ativar o sensor de relativismo cultural e entender que toda aquela imundície era só “costume” deles? Não deu. Parecia porquice mesmo.

Tão logo percebemos a furada em que havíamos nos metido, alguém bateu na porta. Confesso que gelei de medo e imaginei o pior. Caramba, estávamos em um lugar que mais parecia um cativeiro, poderíamos ter caído em uma armadilha. Éramos presas fáceis: jovens, longe de casa, com algum dinheiro no bolso e sem conhecer o lugar que estávamos. Maldita internet! Em poucos segundos criei todo o futuro em minha mente: William Bonner anunciaria que “dois jovens mochileiros foram assassinados brutalmente em Hong Kong”. Nossos órgãos aquela hora já estariam sendo vendidos no mercado negro, na Deep Web, pior ainda, no eBay.

Nossa família estaria chorando copiosamente, nossos sobrinhos ficariam traumatizados para o resto da vida. Enquanto nossos caixões vazios fossem descendo a cova rasa dos indigentes, o irmão da Carol estaria amaldiçoando meu cadáver dizendo “Eu sabia! Eu sabia! Minha irmã não tinha nada que ter ficado com esse garoto!”. Meu pai estaria arrancando os poucos cabelos que ainda lhe restam, e o pranto só seria interrompido pelo meu irmão mais novo que, consolando minha mãe, levantaria seu véu negro e perguntaria: “Posso ficar com a bicicleta dele?”.

Tudo isso passou pela minha cabeça em dois ou três segundos. Carol estava apreensiva, mas assentiu que abríssemos a porta. Girei a maçaneta devagar… e eis então que surge uma loira, alta, olhos verdes e uma mochila nas costas. Era Roberta, mochileira da Lituânia e que também estava hospedada por ali. Feitas as apresentações, ficou um bom tempo falando mal da anfitriã e do lugar. Disse-nos que estilo de vida da garota era péssimo, reclamou do cheiro do namorado dela, revelou que estava odiando o lugar e iria embora no outro dia. Falou inclusive que o lugar já esteve pior (!!!), ela é que havia limpado um pouco.

E agora, o que fazer? Ainda tínhamos outros problemas, nossa câmera estava com defeito e o tênis da Carol estava a machucando, precisávamos urgentemente comprar coisas novas. Deixamos nossas coisas no apartamento e pegamos um metrô para Mong Kok, região famosa pelos bons preços. Mas quem disse que o Sr. Jetlag nos deixaria fazer alguma coisa? Estava anoitecendo e as luzes fortes típicas da metrópole asiática nos deram uma dor de cabeça terrível. A iluminação dos letreiros, a claustrofobia dos prédios, as barraquinhas de comida com odores estranhos e cheias de fumaça, as milhares de pessoas que circulavam no horário de rush e esbarravam na gente…

Tudo aquilo nos irritava profundamente, e logo percebemos que não tínhamos mais concentração para nada. Apenas nos jogamos no próximo metrô e fomos parar novamente no apartamento. A dona da casa já estava lá, mas mal conseguimos falar com ela. Ficou muito feliz com os presentes (doce de leite e Havaianas), agradeceu e tentou puxar conversa, mas eu já não falava mais português, sequer inglês. Emitindo apenas alguns grunhidos, gastei minhas últimas energias para forrar os sacos de dormir no chão sujo e então sucumbimos. Fosse o que Deus quiser – e que as pessoas que recebessem nossos rins pelo menos os merecessem.

A noite foi péssima, acordamos no outro dia bem cansados. A lituana ainda dormia no sofá e a dona da casa havia ido trabalhar. Na cozinha esquisita, a geladeira estava vazia, e sequer haviam panelas ou talheres. Decidimos sair dali e comprar o café-da-manhã, passear um pouco pela região de Tsim Sha Tsui e ver os museus (quarta-feira é de graça!), e depois decidiríamos o que fazer.

Nosso café-da-manhã: dumplings e noodles.

Nosso café-da-manhã: dumplings e noodles.

Após uma tarde cheia, voltamos para o apartamento decididos a pegar nossas coisas e ir para um hotel. Entretanto, demos de cara com a anfitriã limpando a sala. Era engraçado vê-la manuseando a vassoura como se nunca tivesse usado uma antes. O namorado dela, um britânico altão e muito engraçado de sotaque incompreensível, mas super gente boa, pediu-nos desculpa pelo estado do banheiro e avisou que havia conseguido resolver o problema da pia. Aparentemente até eles ficaram constrangidos, talvez a lituana – que já tinha ido embora quando chegamos – tenha falado alguma coisa, não sei. Por fim, decidimos ficar mais uma noite.

No outro dia, acordamos bem cedo e pegamos no batente. Demos uma faxina bonita no lugar, ficou parecendo novo. Por diversas vezes nosso estômago ficou embrulhado com a quantidade de coisas nojentas que achamos nos lugares mais improváveis, mas o resultado da limpeza nos agradou.

Ao chegarem em casa após o trabalho, o casal nos agradeceu muito e acabamos nos entendendo. Mais um hóspede chegou, dessa vez um cearense maluco que está viajando há 16 meses ao redor do mundo. Praticamente transformamos o lugar em um campo de refugiados do Brasil.

No final das contas, acabamos percebendo que, desleixos à parte, estávamos lidando com duas crianças crescidas. Eles tinham seus ideais de vida, abandonaram seus países de origem muito cedo, viviam uma vida muito ocupada apenas para poder juntar algum dinheiro e viajar (já moraram no Brasil, no Peru, na China e só estavam há 3 meses em Hong Kong). Apesar de tudo, ainda abriam o pequeno espaço de seu lar para receber gente do mundo inteiro que, como nós, estivesse viajando e precisasse de um lugar para passar a noite. É um pensamento torto, mas eles tinham “mais coisas para se preocupar” do que limpar a casa.

Com o ambiente limpo, acabamos passando mais tempo do que o planejado por lá, até fomos todos juntos conhecer alguns lugares, e por fim acabamos nos dando bem. Aprendemos ainda nos primeiros dias de viagem uma valiosa lição: nem tudo está perdido, com um pouco de esforço e dedicação podemos resolver qualquer situação.

Carol até arriscou suas primeiras palavras em inglês

(E sim, aparentemente nossos rins ainda estão aqui).